domingo, 21 de abril de 2024

Análise Crítica: Distopias e Reflexões em "Fallout"


Sempre me interessei por histórias distópicas que apresentam uma visão pessimista do nosso futuro. Elas não apenas capturam nossa imaginação, mas também nos instigam a refletir sobre como certas ações no presente podem desencadear futuros insólitos para a humanidade. Nesse contexto, a série de jogos "Fallout", que conquistou uma legião de fãs desde os anos 90, foi recentemente adaptada para as telas pela Amazon Prime, uma transição que merece uma análise detalhada.

"Fallout" é uma série de RPG criada originalmente pela Interplay e, mais tarde, produzida pela Bethesda. Situa-se em um cenário pós-apocalíptico, marcado pela devastação de uma guerra nuclear que quase exterminou a humanidade. Este universo é não apenas um palco para aventuras e desafios, mas também um espelho que reflete questões profundas sobre a condição humana e as consequências de nossas escolhas tecnológicas e políticas.

A adaptação para televisão foi realizada pelos Amazon Studios e Kilter Films, em associação com as produtoras de jogos Bethesda Game Studios e Bethesda Softworks. A série estreou no Prime Video em 12 de abril de 2024 e já tem atraído a atenção tanto de novos espectadores quanto de fãs de longa data do jogo.

Além do entretenimento, tanto o jogo quanto a série proporcionam uma plataforma para reflexões sobre nossa realidade atual e futura. Exploram temas como sobrevivência, moralidade e o impacto da tecnologia em sociedade, oferecendo uma visão crítica que é essencial em nossa era. Ao mergulhar nesse mundo fictício, somos levados a questionar não apenas o que vemos na tela, mas também o rumo que estamos tomando no mundo real.

 

Fallout e a guerra nuclear

 

Vale salientar que um aspecto central tanto do jogo quanto da série "Fallout" é a escolha dos anos 50 como pano de fundo histórico. Esse período coincide com a Guerra Fria, uma época de intensa tensão internacional que durou mais de cinco décadas após a Segunda Guerra Mundial. Este conflito envolveu principalmente as duas superpotências emergentes, os Estados Unidos e a União Soviética, ambas armadas com arsenais nucleares. O termo "Guerra Fria" refere-se à ausência de confrontos militares diretos entre estas nações, já que um conflito nuclear direto seria inviável, levando a uma potencial aniquilação mútua.

Historicamente, o mundo estava polarizado entre o socialismo, liderado pela União Soviética, e o capitalismo, sob a liderança dos Estados Unidos. A existência de armas nucleares e termonucleares nas mãos dessas superpotências criou uma atmosfera de medo constante de um conflito aberto, que poderia resultar na extinção da humanidade. Esse temor era encapsulado pelo conceito de "destruição mútua assegurada" (MAD), que sustentava que qualquer guerra nuclear entre as superpotências provavelmente acabaria com a civilização humana.

Para ilustrar a tensão desse período, podemos relembrar a Crise dos Mísseis de 1962, um dos momentos mais críticos da Guerra Fria. A crise começou quando a URSS enviou mísseis de longo alcance com capacidade nuclear para Cuba, elevando drasticamente o risco de um confronto nuclear. Além disso, é notório que, durante a Guerra Fria, os soviéticos declararam alertas nucleares 143 vezes, enquanto estima-se que os presidentes americanos estiveram à beira de iniciar um conflito nuclear ao menos 20 vezes. Nesse contexto, espionagem, generais desequilibrados, bombas perdidas e falhas em sistemas computacionais quase precipitaram o mundo em uma catástrofe nuclear.

Como mencionado anteriormente, o jogo e a série "Fallout" utilizam como pano de fundo uma linha do tempo alternativa que se desvia da nossa após a Segunda Guerra Mundial. Este cenário inclui diferenças críticas que moldam tanto o contexto geopolítico quanto tecnológico do jogo, impactando diretamente no ambiente pós-apocalíptico explorado, que oferece uma interpretação distinta da Guerra Fria e suas consequências.

Um dos aspectos mais destacados em "Fallout" é a evolução tecnológica, que seguiu um caminho bastante diferente do nosso. Em vez do desenvolvimento de eletrônicos em miniatura e computadores modernos, a cultura e a tecnologia no universo de "Fallout" permaneceram ancoradas na estética dos anos 50, caracterizada por grandes computadores e carros de design futurista movidos a energia nuclear.

No que tange à política, o cenário em "Fallout" é marcado pela escassez de recursos naturais, especialmente petróleo, desencadeando uma série de conflitos internacionais conhecidos como "Guerras dos Recursos". Essa escassez agudiza as tensões globais e culmina em eventos como a invasão chinesa do Alasca para controle das reservas petrolíferas. Analogamente, em nosso mundo real, a sociedade também enfrenta uma dependência crítica de recursos finitos como o petróleo, que representa cerca de 35% do consumo global de energia. Estima-se que o pico de produção de petróleo ocorrerá entre 2020 e 2035, o que levanta a questão: estaremos caminhando para um conflito global por recursos, como sugere o jogo?

O clímax do conflito em "Fallout" é a "Grande Guerra" de 2077, que, durando apenas duas horas, contrasta drasticamente com a Guerra Fria real, que nunca resultou em um confronto nuclear global. Em "Fallout", todas as potências lançam seus arsenais nucleares, levando à quase total aniquilação da civilização humana. Este evento catastrófico define o cenário pós-apocalíptico central do jogo.

 

Fallout e o Macartismo

 

Outro ponto que se destaca tanto no jogo quanto na série "Fallout" é a caça às bruxas, mas, neste caso, a caça aos comunistas. Durante a Guerra Fria nos Estados Unidos, vivenciamos um período de intensa perseguição política conhecido como macartismo. Este movimento, nomeado a partir do senador americano Joseph McCarthy, visava combater a influência comunista no país.

Para situar o leitor historicamente, é importante lembrar que o macartismo ocorreu entre 1950 e 1957, em resposta à crescente tensão da Guerra Fria e à expansão global do comunismo. Nesse contexto, o Senador Joseph McCarthy, do Partido Republicano, emergiu como uma figura proeminente anticomunista. Ele afirmava, sem apresentar provas concretas, que havia uma infiltração maciça de comunistas nos Estados Unidos, inclusive como espiões soviéticos. Essa histeria anticomunista transformou-se numa verdadeira "caça às bruxas", onde políticos ambiciosos usavam o medo para angariar votos.

McCarthy chegou a anunciar que tinha uma lista de 205 comunistas infiltrados no Departamento de Estado. O Congresso, em resposta, aprovou uma lei que exigia o registro de todos os comunistas e, em caso de emergência, esses indivíduos poderiam ser isolados em campos de concentração. Artistas, escritores e cidadãos comuns foram submetidos a investigações e perseguições intensas. Na série da Amazon, Hollywood é retratada como um microcosmo dessa paranoia e desconfiança, onde figuras públicas são frequentemente acusadas de serem comunistas ou de terem ideologias contrárias aos interesses da corporação Vault-Tec.

Essa dinâmica não difere muito do que vemos hoje, onde o "fantasma do comunismo" ainda alimenta a paranoia de certos segmentos da população, principalmente os mais conservadores. Isso resulta em perseguições a pessoas, obras e estilos de vida, fundamentadas em uma lógica anticomunista irracional.

É importante salientar que a corporação Vault-Tec em "Fallout" simboliza a autoridade corporativa e governamental que utiliza táticas de medo e controle para manter a ordem e promover sua agenda. A empresa não apenas desenvolve e mantém os abrigos nucleares, os Vaults, mas também manipula seus habitantes para realizar experimentos sociais e psicológicos. A perseguição a supostos comunistas e dissidentes dentro e fora de Hollywood é usada como uma ferramenta para reforçar o poder da Vault-Tec, de maneira semelhante ao uso do anticomunismo para consolidar o poder político durante o macartismo.

Além disso, vale ressaltar que o macartismo influenciou conflitos subsequentes, como a Guerra da Coreia e a Guerra do Vietnã. Embora a Guerra Fria tenha terminado em 1989, a ideologia capitalista ainda prevalece no mundo globalizado. No entanto, o fantasma do comunismo continua sendo invocado para justificar a persistência do capitalismo.

 

Fallout e resiliência humana

 

A análise do próprio nome da série "Fallout" revela significados profundos que se conectam diretamente com sua temática. Literalmente, "fall out" pode ser interpretado como "cair para fora", uma expressão que descreve o movimento dos protagonistas dos jogos e da série ao saírem de suas zonas de conforto para enfrentar um mundo hostil. Esse deslocamento os obriga a confrontar e possivelmente revisar suas perspectivas sobre identidade, conhecimento e motivações. No entanto, no contexto militar, "fallout" refere-se à precipitação de material radioativo após uma explosão nuclear, e de forma mais ampla, pode denotar os efeitos adversos resultantes de um evento ou ação — uma descrição adequada para o cenário pós-apocalíptico do jogo.

No mundo de "Fallout", a adversidade é um tema central. Os habitantes enfrentam radiação, escassez de recursos, criaturas mutantes e conflitos constantes. A resiliência se torna então uma qualidade indispensável para superar esses desafios e manter a luta pela sobrevivência. A série destaca tanto a resiliência individual quanto a coletiva, com comunidades como os moradores dos Vaults e membros de várias facções unindo-se em prol da sobrevivência.

Um exemplo notável de adaptação são os Ghouls (pós-humanos necróticos), humanos que foram transformados pela radiação. Apesar de suas aparências alteradas, eles se adaptaram à nova realidade e continuam a viver, demonstrando uma capacidade de recuperação após perdas e traumas — uma lição valiosa de resiliência e perseverança mesmo em condições extremas.

A série "Fallout" também reflete sobre a esperança de um futuro melhor, um tema recorrente que alimenta a determinação dos personagens mesmo diante da desolação. Eles continuam a lutar, explorar e buscar soluções, uma mensagem pertinente para nosso mundo atual, onde conflitos persistentes e crises climáticas desafiam a eficácia das medidas políticas e corporativas. Apesar das evidências claras das mudanças climáticas e da necessidade urgente de ação, parece haver uma falta de vontade significativa por parte de grandes corporações e governos para implementar políticas de bem-estar social e buscar alternativas energéticas sustentáveis.

"Fallout" nos ensina que mesmo na destruição existe esperança, um princípio que deve transcender a ficção e inspirar ações reais para garantir a sobrevivência e o bem-estar da humanidade em nossa realidade.

 

Fallout e a distopia

 

Comparar "Fallout" com outras obras distópicas oferece uma visão profunda sobre como diferentes autores e criadores abordam questões políticas e sociais em cenários ficcionais que especulam sobre futuros possíveis ou alternativos. A literatura e o cinema distópicos frequentemente empregam extremos sociais e políticos para criticar problemas contemporâneos, fornecendo reflexões valiosas sobre a trajetória potencial de nossa sociedade.

"1984" de George Orwell destaca temas como vigilância governamental, controle da informação e repressão política. Semelhante a "1984", "Fallout" também explora a manipulação e o controle da população por uma autoridade central, embora por meio de métodos distintos. Enquanto "1984" foca na vigilância constante e manipulação da verdade histórica, "Fallout" utiliza o medo da aniquilação nuclear e experimentos sociais para controlar seus cidadãos. Ambas as obras são críticas ao autoritarismo e refletem sobre a erosão da liberdade individual.

"Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley aborda o controle social por meio de tecnologia avançada, manipulação genética e conformismo induzido desde o nascimento. Em comparação, "Fallout" explora temas similares de controle e conformidade, mas integra métodos distintos e talvez mais visíveis de manipulação. Além do medo e do isolamento físico nos Vaults, "Fallout" também adentra o território da biotecnologia por meio de experimentos genéticos e a criação de criaturas mutantes.

Nos Vaults, por exemplo, alguns abrigam experimentos que vão desde alterações psicológicas até modificações genéticas, demonstrando uma faceta da série que se alinha mais estreitamente com as preocupações de Huxley sobre as implicações éticas da engenharia genética. Os Ghouls, transformados pela radiação em vez de manipulação genética direta, são outro exemplo de como "Fallout" aborda a mutação e a adaptação humana em condições extremas, refletindo as preocupações éticas relacionadas ao uso da tecnologia e suas consequências na alteração de seres humanos.

Assim, enquanto "Admirável Mundo Novo" usa a biotecnologia como um meio de imposição de um estado utópico ordenado, "Fallout" apresenta um cenário caótico pós-apocalíptico onde a ciência e a tecnologia são aplicadas de maneira menos ordenada, mas igualmente impactante. Ambas as narrativas exploram os limites éticos da intervenção científica e tecnológica nas sociedades, provocando questionamentos sobre até onde podemos ou devemos ir na manipulação da natureza humana e do nosso ambiente.

"Jogos Vorazes" de Suzanne Collins ressalta o autoritarismo, a desigualdade social e a rebelião juvenil. Tanto "Fallout" quanto "Jogos Vorazes" exploram a resistência contra regimes opressivos em contextos pós-catastróficos. No entanto, "Jogos Vorazes" enfoca a desigualdade e a exploração de distritos periféricos por uma capital opulenta, enquanto "Fallout" retrata uma luta mais dispersa pela sobrevivência em um mundo sem uma autoridade central clara.

Essas comparações ajudam a ilustrar a diversidade de abordagens dentro do gênero distópico e destacam a relevância dessas obras para o entendimento de nossos próprios dilemas sociais e políticos. Ao confrontar essas visões de futuros distópicos, tornamo-nos mais conscientes das consequências das trajetórias que nossa sociedade pode seguir e da importância de salvaguardar as liberdades individuais e coletivas.

 

Conclusão

 

Em última análise, "Fallout" não é apenas uma série de jogos ou uma adaptação televisiva; é um espelho distópico que reflete as inquietações mais profundas da sociedade moderna, questionando as direções que estamos tomando e os valores que sustentamos. As diversas camadas de narrativa exploradas, desde os horrores nucleares até as experimentações bioéticas nos Vaults, oferecem uma crítica aguçada aos riscos associados ao avanço tecnológico descontrolado e ao poder centralizado. Este universo, ao combinar elementos de várias obras distópicas clássicas, revela uma tapeçaria complexa de possibilidades futuras que são tanto um aviso quanto um convite à reflexão. As lutas pela sobrevivência, a resistência contra regimes autoritários e a busca pela identidade em um mundo fragmentado são temas universais que "Fallout" articula com uma pertinência que transcende o virtual, ecoando nas realidades sociais e políticas que enfrentamos atualmente. Portanto, "Fallout" se estabelece não apenas como entretenimento, mas como um instrumento vital de introspecção e crítica social, desafiando-nos a considerar não apenas o que pode ser, mas o que deve ser evitado a todo custo.

sábado, 20 de abril de 2024

A arte do julgamento

 



Os sussurros sobre a chegada de um novo artista à corte de Luís XIV em Versalhes corriam como brisas inquietas através dos corredores ornamentados e salões opulentos do palácio. Em uma era em que a majestade real patrocinava as ciências, as letras e as artes com uma liberalidade sem precedentes, cada novo rosto era um acréscimo à tapeçaria viva que tecia a glória do Rei Sol. Por trás dessa façanha cultural, havia um projeto ambicioso: a arte, meticulosamente orquestrada e oficialmente endossada, era o bastião da grandiosidade real, um instrumento de poder incontestável.

O Château de Versailles, uma vez um modesto pavilhão de caça herdado de Luís XIII, havia sido transformado sob o comando de Luís XIV em um ícone da monarquia absoluta francesa, um palácio deslumbrante que irradiava o esplendor do poder político. Com a orientação visionária de mestres como Louis Le Vau, Jules Hardouin-Mansart, Charles Le Brun e André Le Nôtre, o palácio e seus jardins passaram por expansões e embelezamentos sem igual, culminando em uma manifestação arquitetônica de luxo, ordem e harmonia.

A chegada do novo artista, no entanto, estava envolta em um manto de mistério. A escolha de recebê-lo sob o véu da noite gerava um misto de curiosidade e inquietação entre os habitantes do palácio. Em uma noite gélida de outono, o ar crispado pela expectativa, centenas de servos se reuniram à espera da carruagem que traria a mais recente adição à corte. À medida que a meia-noite se aproximava, uma carruagem modestamente iluminada surgiu ao longe, puxada por cavalos de aparência robusta e majestosa, cujos cascos ecoavam poderosamente contra o caminho de cascalho.

À medida que a carruagem avançava, os olhos do misterioso artista deveriam vislumbrar os jardins meticulosamente desenhados por André Le Nôtre, um espetáculo de engenhosidade humana e beleza natural. Esses jardins, um triunfo da simetria, ordem e beleza, estendiam-se diante do palácio como um testemunho vivo do controle absoluto do rei sobre a natureza.

Quando a carruagem finalmente se imobilizou diante do grandioso portal, um silêncio expectante pairou sobre a multidão de servos reunidos, cada um antecipando o momento de revelação. No entanto, antes que pudessem se adiantar para cumprir seu dever, uma figura imponente desceu não da cabine destinada aos passageiros, mas da posição do cocheiro. Vestido em um longo sobretudo de veludo negro, adornado com discretos detalhes em fio de ouro que capturavam a escassa luz noturna, o homem possuía uma estatura e presença que comandavam atenção imediata.

Seus olhos, de um amarelo profundo e quase dourado, brilhavam com um esplendor sinistro sob a noite enluarada, lançando um olhar que paralisou os servos com uma mistura de confusão e temor. A pele do homem, de um tom ébano rico e raro na corte francesa, sugeria uma origem distante, talvez das colônias francesas na África ou do Novo Mundo, conferindo-lhe um ar de exotismo e mistério.

Com um gesto autoritário, ele abriu a porta da carruagem, desvelando o aguardado artista de maneira dramática. Em Versalhes, onde o status e a linhagem eram tão críticos quanto o talento, a chegada de um artista raramente provocava tal cerimonial. No entanto, a comitiva reunida parecia suspender essas convenções, preparada para recepcionar a figura emergente com uma deferência quase nobre.

A surpresa se aprofundou quando, do interior da carruagem, um jovem de não mais de 18 anos fez sua aparição não com a cautela esperada, mas com um salto ágil e despreocupado, ignorando completamente a pequena escada e o banco meticulosamente posicionados para facilitar seu desembarque.

Sua pele, de um branco alabastro, contrastava vivamente com o dourado opulento que permeava o Palácio de Versalhes, uma palidez tão marcante que quase sugeria fragilidade, não fosse por sua expressão radiante e a vitalidade que seus gestos insinuavam. Os cabelos loiros, longos e despojadamente amarrados com uma fita de um verde vibrante, evocavam a luminosidade do verão, enquanto seus olhos azuis claros refletiam a serenidade de um céu sem nuvens.

Contrariando todas as expectativas da corte, sua vestimenta era um estudo de simplicidade e praticidade: uma camisa de algodão puro, calças de um verde sutil que caíam soltas sobre suas pernas e, mais chocante ainda, calçava sandálias, um desvio audacioso das botas e sapatos de fivela que dominavam os corredores de Versalhes. Essa escolha de indumentária não apenas desafiava as convenções da moda francesa, mas também se apresentava como um manifesto silencioso de sua origem e independência estrangeiras.

“Aqui é bem mais frio do que imaginei...” ele observou, dirigindo-se ao seu acompanhante de pele ébano, cuja expressão impassível não revelava resposta. A admiração, porém, era evidente em sua voz ao acrescentar, “Mas de fato é algo grande, como você tinha me dito.” Seu francês, embora impecável, carregava um sotaque exótico que confundia os ouvintes, uma melodia estrangeira que entrelaçava suas palavras com um charme misterioso.

Dirigindo-se a outro acompanhante, um jovem que parecia deslocado entre os servos, com seus cabelos negros e olhos escuros brilhando contra a pele pálida – vestido com a elegância da nobreza francesa, mas servindo humildemente ao pintor. A presença deste jovem, tão adequadamente vestido e, no entanto, agindo como um servo, adicionava uma camada de intriga à já fascinante chegada do artista.

O chefe dos servos da corte, um homem de estatura imponente e postura impecável, avançou com passos medidos em direção ao recém-chegado artista. Com uma reverência cuidadosa, ele anunciou: “Monsieur Phoebus Crepuscule, Sua Majestade o aguarda.”

A resposta de Phoebus, no entanto, desencadeou uma onda de choque entre os presentes. “Oh! Ele realmente permaneceu desperto à minha espera? Na correspondência, fiz questão de expressar que um encontro pela manhã seria de meu agrado. Seria possível postergar nossa audiência?” Sua indiferença causou um frisson de horror entre os servos e até entre os membros da guarda real, pois tal ousadia era inconcebível na presença do Rei Sol, cujas ordens eram inquestionáveis.

O jovem servo do artista, vestido com trajes que denotavam sua posição de nobreza, tocou discretamente a manga de algodão de Phoebus, buscando atrair sua atenção. “Creio...” começou ele, com um tom de hesitação, “que seria prudente atender ao chamado de Sua Majestade.”

Phoebus ponderou por um momento, acariciando seu queixo com uma expressão de reflexão profunda, enquanto o chefe dos servos mantinha-se em sua posição de respeito, aguardando a resposta do visitante audacioso. A insolência do jovem artista poderia facilmente resultar em um destino sombrio nas masmorras. O que havia de tão excepcional naquele estrangeiro?

“Está bem, encontrarei o rei. Afinal, é melhor resolvermos isso logo,” concluiu Phoebus, soltando uma risada despreocupada e segurando a mão do servo que lhe havia aconselhado, iniciando sua caminhada em direção ao encontro real. Eles eram seguidos de perto pelo imponente servo de olhos dourados, cuja presença silenciosa e intimidadora parecia emanar uma aura de desaprovação.

Enquanto Phoebus e sua comitiva adentravam o esplendor da corte de Luís XIV em Versalhes, eles atravessaram o magnífico Vestíbulo de Mármore. Este espaço imponente, com suas colunas robustas e o chão mosaico em mármore preto e branco, era um prelúdio da grandiosidade que se desdobraria diante deles. Os tetos, adornados com afrescos que exaltavam as vitórias e o governo de Luís XIV, eram complementados por bustos e esculturas de mármore que retratavam os monarcas franceses predecessores, criando uma ponte silenciosa entre o passado glorioso e o presente majestoso.

Ao prosseguir, encontraram-se na deslumbrante Galeria dos Espelhos, o coração pulsante de Versalhes. Este salão majestoso, alinhado com 357 espelhos que enfrentam as janelas opostas, captava a luz do sol durante o dia, criando uma aura dourada que agora, sob o manto da noite, transformava-se em um brilho suave e etéreo, graças à iluminação cuidadosamente planejada. Os afrescos no teto, obra-prima de Charles Le Brun, narravam as façanhas do reinado de Luís XIV.

Conforme avançavam, cada salão que atravessavam era dedicado a um deus ou planeta, reforçando a imposição da divindade do rei sobre seu domínio terreno. O Salão de Apolo, em particular, destacava-se não apenas como a sala do trono, onde Luís XIV orquestrava os assuntos do estado, mas também como um santuário para as artes, cercado por pinturas e esculturas que celebravam sua grandeza. Foi neste ponto que Phoebus, com sua curiosidade inata e despreocupação característica, fez uma pausa, contemplando o salão com um brilho de interesse em seus olhos.

"Salão de Apolo, hein? Isso é irônico, não acha?" comentou Phoebus, arrancando um olhar de urgência de seu companheiro, que o puxava suavemente, tentando incitar a continuidade de sua caminhada.

"Por favor, mantenha a voz baixa... O que pensarão os outros? Estamos aqui a serviço, não para suscitar escândalos," repreendeu o servo em um sussurro, um tom incomum para a relação entre mestre e serviçal. A tensão entre eles sugeria uma familiaridade que transcendia as convenções sociais, surpreendendo outros servos com a audácia da interação.

"Mas é Apolo! Não encontra humor na situação, Luís? Considerando as circunstâncias..." Phoebus continuou, com um sorriso que iluminava seu rosto, imperturbável pela repreensão.

Luís, o servo, corou levemente sob o escrutínio de seus companheiros e com um puxão mais firme, conduziu Phoebus adiante, um gesto que, embora apressado, carregava uma camada de cumplicidade e entendimento mútuo.

A comitiva de Phoebus avançou pelos corredores do Palácio de Versalhes, um labirinto de esplendor e grandeza, cujas paredes eram enfeitadas com tapeçarias ricas e obras de arte de valor inestimável. À medida que se aproximavam dos Aposentos Reais, o ambiente tornava-se ainda mais imponente, cada passo os levando mais perto da presença do monarca supremo.

Os aposentos do rei, estrategicamente posicionados para saudar o nascer do sol, serviam como o cenário perfeito para o encontro com Luís XIV. Com 45 anos, o Rei Sol emanava uma aura de majestade e autoridade indiscutíveis, uma encarnação viva do absolutismo monárquico e da grandiosidade barroca que marcava sua era. Rodeado pela opulência que ele mesmo ordenara criar, Luís XIV era o epicentro do poder, não apenas na França, mas em toda a Europa.

Vestido em trajes que exibiam a riqueza e o esmero de seu reinado, o rei trajava um casaco finamente bordado com fios dourados, adornado por pedras preciosas que capturavam a luz, criando um espetáculo visual. Uma camisa de linho branco, com rendas elaboradas, espreitava por debaixo do casaco, e uma capa real, talvez de um veludo azul profundo ou vermelho sangue, repousava sobre seus ombros, bordada com o símbolo do sol, em homenagem ao seu apelido. Seu cabelo, meticulosamente arrumado, e uma peruca encaracolada, seguindo a moda da nobreza, completavam sua aparência.

Ao entrar nos aposentos do rei, Phoebus, com sua habitual descontração, rompeu o silêncio reverencial. "Devo dizer que admiro o seu estilo e apreço pelas artes. O trajeto desde a entrada até aqui foi, indubitavelmente, uma experiência peculiar," disse, violando sem cerimônia as rígidas normas de etiqueta da corte. Em Versalhes, era esperado que os visitantes demonstrassem sua submissão e respeito ao rei através de uma reverência profunda, mantendo-se em silêncio a menos que fossem diretamente abordados pelo monarca.

A ousadia de Phoebus provocou um murmúrio de desaprovação entre cortesãos e guardas, muitos dos quais pareciam prontos para intervir. No entanto, Luís XIV, com um gesto tranquilo, silenciou os presentes e, para surpresa de todos, recebeu o comentário do artista com um sorriso.

"É com prazer que vejo Versalhes despertar um apreço artístico em vós, Monsieur Crepuscule," respondeu o rei, demonstrando uma tolerância e um interesse que desafiavam as expectativas.

"Vejo que fiz bem em aceitar o convite de minha mãe para este encontro. Parece ser algo que irá me entreter mais do que esperava," comentou Phoebus com um tom de voz relaxado "Falando nisso, creio que seria sensato discutirmos nosso assunto em particular, não concorda?" Sua sugestão, acompanhada de um gesto amplo e expressivo em direção à multidão que preenchia o aposento, destacou o quão público era aquele momento supostamente íntimo.

A sugestão de Phoebus para uma conversa privada com o Rei Sol poderia ser considerada audaciosa, até mesmo ultrajante, para os padrões da época. Apesar da importância já demonstrada pela recepção grandiosa concedida a ele e do fato de o próprio monarca não ter demonstrado ofensa perante suas maneiras pouco convencionais, havia limites para a indulgência. No entanto, a resposta de Luís XIV surpreendeu a todos mais uma vez.

"Está correto, Monsieur Crepuscule. O que temos a discutir é, de fato, bastante delicado. Prefiro que conversemos a sós," declarou o rei, sua voz ressoando com autoridade incontestável. Diante de tal ordem direta do soberano, nenhum dos cortesãos, servos ou guardas ousou objetar. Com reverências profundas, uma após a outra, as figuras que compunham a audiência real se retiraram do aposento, deixando o rei e o artista em uma privacidade que poucos poderiam reivindicar.

"Meus subordinados se retiraram, contudo, observo que os seus permanecem," comentou o rei, direcionando seu olhar primeiro para o alto servo de olhos dourados, cuja postura impassível e falta de reverência constituíam uma quebra das normas cortesãs, desafiando o monarca com um olhar direto. Em seguida, sua atenção desviou-se para o outro servo, cuja aparência e vestimentas refletiam a elegância imposta pela moda da corte, um contraste notável com a simplicidade do traje de seu mestre. Este servo mantinha o rosto baixo, possivelmente em reconhecimento da autoridade real que seu companheiro desdenhava.

"Diferente dos seus, meus acompanhantes estão inteiramente cientes do assunto que nos ocupa, eliminando qualquer motivo para preocupação," replicou Phoebus, com um sorriso que rasgava seu rosto, revelando caninos inusitadamente proeminentes.

"Quanto ao propósito de minha visita, venho por um pedido feito por minha mãe. Segundo entendi, vossa majestade deseja se juntar a nós... tornar-se um filho da noite. Irônico, considerando-se que você se denomina Rei Sol," provocou Phoebus, sua voz carregada de sarcasmo. A audácia de suas palavras forçou Luís XIV a controlar-se para não convocar a guarda real, consciente de que, frente à entidade sobrenatural diante dele, talvez nem seus mais valentes guerreiros fossem suficientes.

"Desejo a imortalidade," confessou o rei, esforçando-se para manter firmeza em sua voz. "Acredito ser merecedor, dada a magnitude de minhas conquistas, como deve ter observado."

"De fato, fui eu quem foi escolhido dentre todos os meus irmãos e irmãs por minha mãe para esta tarefa," disse Phoebus, esboçando um sorriso que fez o monarca sentir um arrepio inesperado. "E há mais uma razão. Você anunciou à sua corte que sou um artista, o que é verdade. Minha presença aqui não é mera desculpa ou justificativa para visitar Versalhes. Como artista, é por meio da minha arte que julgarei se você está apto a se juntar à nossa exclusiva linhagem. Pretendo pintar um retrato seu."

A proposta deixou o rei visivelmente surpreso. Embora não fosse estranho ser o sujeito de retratos, a ideia de ser avaliado por meio de um deles era inovadora e, de certa forma, desconcertante. "Como exatamente serei julgado por um retrato?" ponderou Luís XIV.

"Levarei dois dias para completar," continuou Phoebus, desviando seu olhar para a janela. A luz da lua, filtrando-se através dela, lançava uma luminosidade etérea sobre o ambiente.

"Dois dias? Isso parece impossível," murmurou o rei com ceticismo. Artistas de sua corte, como Hyacinthe Rigaud, conhecidos por seus retratos meticulosamente detalhados, dedicavam meses a uma única peça.

"Dois dias," reafirmou Phoebus, voltando seu olhar penetrante para o Rei Luís XIV. Seus olhos, anteriormente de um azul sereno, agora exibiam um tom vermelho sangue, instilando um frio visceral no soberano. "Em dois dias, concluirei seu retrato. Nos encontraremos todas as noites no salão que você denomina de Apolo. Após esse período, proferirei meu veredicto sobre seu desejo de se tornar um vampiro."

E assim, sob a promessa enigmática de Phoebus, o destino do Rei Sol foi irrevogavelmente selado.

 

o Rei Sol encontrava-se em um estado de tensão não provocado pelo peso das insígnias de seu poder ou pelo rigor das formalidades cortesãs, mas pela atmosfera enigmática que Phoebus, o vampiro artista, havia instaurado. Embora familiarizado com o tédio que poderia acompanhar as longas sessões de pose para retratos, a experiência atual distanciava-se radicalmente de qualquer coisa que o monarca tivesse vivenciado antes.

Posando em seu trono, Luís XIV estava adornado com suas vestes mais suntuosas, completas com as joias mais deslumbrantes e uma peruca impecavelmente estilizada, tudo meticulosamente escolhido para impressionar o artista de natureza sobrenatural. Contudo, o esplendor de sua aparência pouco contribuía para aliviar o peso da ansiedade que o dominava, uma tensão que emanava não das formalidades da corte, mas do próprio Phoebus e do clima sobrenatural que ele havia criado.

Phoebus, despido de convenções tanto quanto de sua camisa, trabalhava descalço sobre o piso frio do Salão de Apolo. Por sua ordem, o espaço fora isolado do resto do palácio, transformando-se em um ateliê privativo onde apenas as chamas trêmulas das velas rompiam a escuridão, projetando sombras dançantes nas paredes cobertas por tapeçarias históricas. As janelas estavam ocultas sob pesados tecidos, garantindo que nenhum olhar curioso perturbasse a sacralidade do processo criativo.

O rei observava, fascinado e apreensivo, enquanto Phoebus dançava em um transe artístico, suas mãos movendo-se com uma velocidade sobrenatural, alternando entre pincéis embebidos em uma tinta de propriedades mutáveis. A substância parecia viva, mudando de cor e textura ao capricho do vampiro, um fenômeno que cativava e aterrorizava Luís XIV em igual medida.

Os servos, movendo-se como sombras, traziam novas cores para alimentar a frenética criação do artista. E, nos momentos em que Phoebus mergulhava o pincel na paleta, seus olhos transformavam-se, adquirindo um brilho vermelho intenso, desprovido de qualquer vestígio de humanidade, enquanto presas ameaçadoras e sedutoras delineavam-se em seu sorriso.

Os dois dias, ou mais precisamente, duas noites, transcorreram de forma tão vertiginosa que o Rei Luís XIV chegou a questionar se estava imerso em algum tipo de sonho ou febre delirante. Ao término da segunda noite, conforme o vampiro artista havia predito, a obra estava completa.

"Inacreditável..." murmurou o rei, sua voz permeada por um misto de incredulidade e fascínio.

"Por favor, venha ver..." convidou Phoebus, gesto com as mãos manchadas de tinta em direção à tela ainda oculta da visão do monarca. Com passos apressados, impulsionados tanto pela curiosidade quanto pela ansiedade, Luís XIV aproximou-se para desvendar o mistério da pintura.

O que ele encontrou diante de seus olhos foi um choque, uma sensação de horror que permeou seu ser. A tela revelava sua figura sobre o trono, mas divergia radicalmente dos retratos anteriores, nos quais se via imbuído de uma superioridade quase divina. Ao contrário, o retrato apresentava um realismo grotesco: as rugas e imperfeições de sua pele eram visíveis, até mesmo ridicularizadas pelo uso excessivo de pó branco de arroz. Mas o elemento sobrenatural era ainda mais perturbador. O trono era retratado como se fosse construído de ossos, cercado por figuras doentes e famintas estendendo suas mãos em direção às suas vestes luxuosas. No fundo, cenas de guerras e cobradores de impostos agredindo camponeses e a classe trabalhadora para financiar conflitos e a própria construção de Versalhes, retratada como um palácio erguido sobre restos humanos.

A pintura pulsava com uma vida sinistra, exalando odores de podridão, carne, excrementos e sangue, uma aura palpável de morte e sofrimento que emanava da tela.

Tremendo, o rei buscou um lenço para cobrir a boca e o nariz, tentando se proteger da representação aterradora diante dele. "Que pintura horrenda... O que isso significa?" perguntou a si mesmo, confuso e aterrorizado.

"Sabe o que acho curioso nisso tudo..." começou Phoebus, quebrando o silêncio pesado com sua presença quase esquecida. "Não incluí nenhum sol neste retrato... Não vi nenhuma luz emanando de vossa majestade, apesar de fazer tanta questão de associar-se a esse astro tão luminoso no céu."

"Essa pintura... Ela é uma falsidade," proclamou o rei, sua voz embargada por repúdio ressoando através do Salão de Apolo em Versalhes.

"Mentira? Veja bem, eu não me dedico a pintar falácias... Diferentemente de seus artistas, devo salientar," retrucou o vampiro, esboçando um sorriso irônico.

"O que você está insinuando? Que eu sou o monstro retratado nesta obra? Que este será o meu legado?" O monarca, visivelmente exasperado, confrontou Phoebus. "Quem é você para me julgar? Você me associa à morte... mas é sabido que sua espécie leva a morte por onde passa. Hipócrita. Esta é a sua conclusão após seu julgamento? Eu sou um dos maiores governantes da França! Minhas conquistas falam por si!"

Phoebus, com um gesto descompromissado, limpou um de seus pincéis em um recipiente de água, que gradualmente adquiriu uma tonalidade de vermelho intenso, desprendendo um aroma metálico que lembrava sangue.

"Eu fui encarregado de julgá-lo, e assim o fiz."

"E o que isso significa? Exijo conhecer seu veredicto! Ordeno que..." A fala do rei foi abruptamente interrompida por um golpe surpresa de Phoebus, que o derrubou ao chão. O monarca, adornado em sua armadura de cavalaria para o retrato, sentiu o metal amassar com o impacto. Ele tentou clamar por sua guarda, mas seus olhos se fixaram no vampiro que agora se posicionava sobre seu peito, exibindo um sorriso predatório.

"Sabe, minha mãe não me enviou aqui, nem me incumbiu desta tarefa. Fui eu quem solicitou essa missão, movido pela curiosidade. Desejava conhecer o homem que se intitula Rei Sol. Eu tinha que encontrar aquele que leva o nome do astro que mais venero... Sim, é de conhecimento comum que nós, vampiros, deveríamos temer o sol. Que seus raios nos queimam, que ele representa a morte para nós. Mas eu, eu amo o sol. Admiro o que ele simboliza, o que significa. E sempre fiz questão de enaltecer a magnificência do nosso astro rei. Por isso, quando fui transformado, escolhi o nome de Apolo, ou Phoebus. E ao chegar aqui, ao testemunhar este salão e toda a sua construção ornada com ouro e representações solares... Ah, como eu me deleitei e ao mesmo tempo desprezei! Como desejei acabar com sua vida no instante em que o vi..."

O rei observava a cena com terror refletido em seus olhos, sentindo uma dor aguda no peito. O desejo pela imortalidade, suplicado à senhora dos mistérios, agora parecia uma escolha precipitada ao trazer o vampiro para dentro dos muros de seu palácio.

"Minha mãe tem um apreço por coletar espécimes notáveis da humanidade, buscando preservar certas linhagens," disse Phoebus, agora mais conhecido como Apolo, com uma voz carregada de resignação. Seus olhos vermelhos se desviaram para uma figura ao lado, enquanto gestos com a mão ainda manchada de tinta sinalizavam para o servo de vestes aristocráticas se aproximar.

"Então, você vai me transformar? Serei finalmente imortal?" perguntou o monarca, um fio de esperança cortando o terror que sentia momentos antes.

"Você reconhece este rapaz?" Apolo inquiriu, provocando no rei um olhar de perplexidade. A presença do servo naquele diálogo crucial parecia deslocada.

"Eu disse que ele não se lembraria..." murmurou o servo, baixando o olhar, o que instigou ainda mais a curiosidade do rei. Ele deveria conhecer o jovem?

"Este é Luís. Enviado como soldado para Flandres, atualmente sob ocupação francesa, como bem sabe. Lá, mesmo adoentado, lutou para recuperar a estima de seu pai. Eventualmente, foi ordenado que Luís se retirasse para Lille para recuperar sua saúde... e lá ele deveria ter morrido aos 16 anos, não fosse por mim," Apolo desvendou a história com uma calma perturbadora.

"Luís..." O nome ecoou nos lábios do rei, o mesmo de seu próprio nome.

"Luís de Bourbon, ou Conde de Vermandois, título que você lhe concedeu após legitimar seu filho bastardo..." o vampiro elucidou, lançando uma nova luz sobre o jovem.

"Você... o transformou?" A percepção do rei mudou ao notar as feições vampirescas no rosto do jovem, os olhos de um vermelho profundo e os caninos pontiagudos que se revelavam em um sorriso.

"Minha mãe desejava alguém da linhagem real francesa em nossa família, mas nunca especificou que precisava ser o rei..." Apolo revelou, imergindo o Rei Sol em um abismo de desespero.

"Então, é agora que você decide me matar? Como uma forma de vingança?" murmurou o monarca, sua voz baixa vibrando com um misto de resignação e medo.

"E por que eu desperdiçaria tal oportunidade?" respondeu o vampiro com uma risada sarcástica. "Não, você vai viver... Viverá por muito tempo. Assistirá aos seus filhos, seus herdeiros, desaparecerem diante de seus olhos... Enquanto você, isolado pela eternidade de sua própria existência, continuará aqui. Não como um imortal, não. Você envelhecerá, sofrerá como qualquer ser humano e morrerá como o mortal que é... Longe de ser um deus." As palavras do vampiro foram sussurradas diretamente no ouvido do rei, carregando o peso de uma profecia sombria ou talvez apenas a cruel realidade do futuro que o aguardava.

O monarca ficou imóvel, consumido pela incerteza. Após essas palavras proféticas, uma escuridão o envolveu completamente. Quando despertou, estava banhado pelos raios solares que inundavam o salão, a luz do dia trazendo uma sensação de calor que contrastava com o frio implacável que o dominava por dentro... E lá estava a tela, seu retrato, colocado à sua frente, tão vivaz e perturbador como o seu pior pesadelo.

O despertar de Luna

 


No vasto recinto, que mais se assemelhava a uma arena antiga, todos os olhares convergiam para ela. As robustas colunas de mármore escuro erguiam-se majestosamente nas laterais, sustentando uma abóbada intricada de pedras rosadas, cuja suave coloração contrastava com a severidade do ambiente. O chão, um mosaico meticulosamente elaborados com pedras coloridas, prestava homenagem aos grandes feiticeiros e feiticeiras que teceram a história mágica daquele mundo.

Próximo aos seus pés, a figura imponente da Bruxa de Endor emergia do chão, suas feições esculpidas com uma precisão quase real. Era lembrada como a vidente que desafiara os deuses, sua importância radicava na fundação das artes divinatórias naquelas terras.

Abe no Seimei, o onipresente conjurador do Oriente, estava retratado com seus trajes tradicionais, a calma em seu semblante contrastando com a complexidade de sua magia. Ele, que harmonizara os espíritos da natureza com os homens, era o pilar do equilíbrio entre o visível e o invisível.

Morgan Le Fay, a feiticeira que tecera intrigas em torno do trono de Camelot, estava representada com um olhar astuto e enigmático. Sua habilidade em manipular as relações entre os seres mágicos e mortais estabeleceu novos paradigmas para a magia política.

Circe, a encantadora de homens e bestas, Medea, a feiticeira vingativa, e Hecate, a deusa das encruzilhadas, eram representadas em poses que capturavam sua essência e influência na expansão dos domínios mágicos.

Baba Yaga, a temida feiticeira eslava, parecia quase viva com seu olhar penetrante esculpido na pedra, a guardiã dos segredos da floresta e da magia antiga que ainda assombrava as mentes dos habitantes daquele mundo.

Por fim, o semblante sereno de Merlin emergia, seu legado era um farol para todos os praticantes da arte mágica. A pressão sobre ela era imensurável, sendo ela uma descendente direta do legendário feiticeiro. Era o dia da avaliação, um rito de passagem que todo jovem bruxo ou bruxa precisava enfrentar para dar início à sua jornada mágica. Luna sabia que não havia margem para falhas.

Seus olhos percorriam a multidão que circundava a arena, espreitando por entre as sombras lançadas pelas colunas majestosas. Entre a multidão, ela identificou a silhueta familiar de seus pais. Eles se destacavam não apenas pelas vestes elegantes e coloridas que trajavam, mas pela aura mágica e poderosa que emanava deles, como um lume suave que dançava ao redor.

Seu pai, Magnus, era um mago de renome, conhecido por sua habilidade de manipular luz. Vestia uma túnica de seda de um azul profundo com bordados prateados que brilhavam à luz do dia. Sua mãe, Lilith, uma feiticeira exímia, possuía a domínio do fogo, capaz até de assumir a forma de um dragão imponente. Trajava um longo vestido vermelho com detalhes dourados que pareciam chamas bordadas.

Ao lado deles, seu irmão Alberto ostentava uma armadura reluzente, que refletia o sol de forma quase cegante. A armadura, apesar de robusta, era elegantemente desenhada, com gravuras que contavam histórias de batalhas mágicas. Alberto era um bruxo guerreiro, respeitado por nações inteiras, sua fama vinha de sua habilidade em evitar e resolver conflitos com sua magia e força.

Distante deles, em um canto mais afastado, estava sua irmã Catharina. Com longos cabelos roxos e óculos de meia lua repousados delicadamente sobre o nariz, Catharina era o epítome da erudição mágica. Vestia uma túnica longa de um lilás suave, com detalhes intricados em prata e ouro. Era reconhecida por seu trabalho com textos, tomos e pergaminhos antigos, sua habilidade em romper selos e maldições permitiu que um tesouro de conhecimento mágico fosse acessado pelos habitantes daquele mundo.

Luna sentia uma mistura de orgulho e apreensão. Como poderia corresponder às expectativas geradas por uma linhagem tão ilustre? Ela, que carregava um segredo grande e pulsante dentro de si...

"Senhorita Luna, está pronta?" a voz respeitável de um ancião, membro do conselho avaliador, ecoou pelo salão monumental. Ele pigarreou inquieto, pois Luna parecia perdida em seus pensamentos e não respondeu imediatamente.

"S-sim... Eu... Eu estou pronta..." Luna conseguiu murmurar, embora sua voz tremesse com a insegurança clara que a assolava.

"Então, por favor, apresente seu poder ao público, Luna, descendente do grande Merlin!" o ancião declarou, sua voz amplificada por magia, reverberando majestosamente através do imenso salão.

Luna não sabia se era a magia na voz do ancião, o peso de sua herança mencionada ou talvez a indigestão do seu café da manhã regado a leite que agora tumultuava seu estômago, tudo isso parecia a tornar ainda mais nervosa. Ela estava perdida em uma tempestade de emoções. A apresentação do seu poder foi...

Subitamente, a realidade a sacudiu com o solavanco da carruagem elétrica, cujo motor pipocava ritmicamente, cortando seus pensamentos. A carruagem estava repleta de almas cansadas, retornando aos seus lares após um dia exaustivo de labuta. Luna escondeu seu rosto sob o capuz do moletom que usava, desejando a invisibilidade entre a multidão, mesmo que todos parecessem demasiado esgotados para notá-la. A carruagem deslizava suavemente ao lado das ruínas do que fora a grandiosa arena, palco do seu espetáculo de poder dias atrás...

"Olha só que desastre..." alguém murmurou com um suspiro pesado.

"Sim, dizem que foi um IMI que fez isso. Pode acreditar?" outro trabalhador bruxo falou, seus olhos fixos na melancolia das estruturas ancestrais agora despedaçadas.

"IMI?" uma criança questionou inocentemente sua mãe.

"Indivíduo Magicamente Instável, querido. São pessoas que causam desastres como esse quando tentam usar magia," a mãe explicou suavemente, apontando para o amontoado de destroços.

Luna era a única que desviava o olhar da triste visão, o remorso fervendo em suas veias pelo caos que sua demonstração causara. A culpa era uma sombra fria que a envolvia, um lembrete constante da explosão catastrófica que agora jazia em silêncio, mas cuja memória ressoava estrondosamente em seu coração.

"Cemitério Crepusculi Mystici!" ecoou a voz profunda do condutor, enquanto a carruagem elétrica freava com um suave chiar de rodas diante do enigmático cemitério. Luna, a única passageira a desembarcar naquele ponto isolado, rapidamente recolheu sua mochila e desceu do veículo. Era compreensível que ela estivesse sozinha; afinal, o local só recebia visitantes durante festividades em honra aos mortos, ou por aqueles em busca das tumbas de bruxos e bruxas ancestrais.

Tomando um fôlego profundo, Luna ergueu os olhos para o cenário majestoso e ligeiramente perturbador à sua frente: imensos muros de mármore negro, praticamente engolidos por heras sinuosas e ornamentados com esculturas grotescas de caveiras e gárgulas. Essas últimas pareciam ter vida própria, como se movessem sutilmente quando não estavam sendo observadas.

"Vai ficar tudo bem", murmurou Luna para si mesma, abraçando sua mochila como se fosse um talismã. Dentro dela, repousava um grimório que inspirara sua jornada. Luna era uma IMI — uma incontrolável manifestação mágica. Depois que um desastre tornou público seu estado, ficou claro que sua futura carreira na magia estava em perigo, uma vez que IMIs são proibidos de exercer magia para a segurança de todos.

A reação de sua família foi uma mistura de decepção e culpa. Seus pais, sempre ausentes e concentrados em suas próprias vidas, se recriminaram mutuamente por não terem percebido os sinais. Seu irmão foi mais compreensivo, sugerindo que existiam outras carreiras além da magia. Mas sua irmã foi categórica ao afirmar que Luna era uma espécie de anomalia na família, já que nunca houve um descendente de Merlin com IMI.

Em meio a esse turbilhão de emoções, Luna buscou refúgio nos livros. Não tinha a habilidade de sua irmã Catharina para quebrar maldições ou traduzir línguas antigas, mas adorava ler. E foi assim que, no recanto mais afastado da vasta biblioteca da família, ela encontrou o grimório. As palavras gravadas nas páginas amareladas pelo tempo lhe deram uma centelha de esperança.

"O poder de um bruxo pode ser estabilizado e até ampliado pela presença de um familiar — uma criatura mágica profundamente ligada ao usuário de magia. Por eras, essa conexão permitiu que muitos bruxos e bruxas transcenderam as limitações de seus poderes para se tornarem grandes mestres de suas épocas."

Nos dias atuais, as criaturas conhecidas como "familiares" eram majoritariamente vistas como meros animais de companhia, não como os poderosos parceiros mágicos que um dia foram descritos em textos antigos. Se Luna desejasse um familiar para algo mais do que simples companheirismo — especificamente para estabilizar sua volátil magia interna — ela teria que buscar além dos típicos gatos pretos, corujas ou sapos. Precisaria encontrar uma criatura cujo poder mágico fosse suficiente para contrabalancear o caos mágico que ela própria emanava. Era essa busca que a levava ao enigmático cemitério.

"Fantasmas não são familiares comuns, em grande parte porque a maioria dos bruxos perde seus poderes após a morte e não retorna como espíritos errantes. No entanto, se um mago, bruxo ou feiticeiro tiver sido excepcionalmente poderoso em vida e retornar como um fantasma, ele pode manter uma parcela significativa de seus antigos poderes, tornando-se assim um companheiro ideal para qualquer usuário de magia." Essas palavras, extraídas do antigo grimório, ressoavam na mente de Luna. Ela sabia que o cemitério à sua frente era o mais antigo da região e um notório local de avistamentos de fantasmas de magos e bruxas renomados.

"Se eu conseguir encontrar apenas um fantasma disposto a assinar um contrato de familiar, poderei finalmente me livrar do meu indesejado status de IMI", murmurou Luna para si mesma, instilando em seu coração a coragem necessária. Inspirada, ela deu o primeiro passo decidido em direção ao cemitério, embarcando na aventura de encontrar seu tão almejado familiar espectral.

 

~**~

 

Imponentes mausoléus que se assemelhavam a santuários dedicados a deuses esquecidos se erguiam majestosamente pelo terreno labiríntico do Cemitério Crepusculi Mystici. Entre eles, túmulos mais modestos ficavam quase invisíveis, ocultados por árvores de salgueiro com folhas tão escuras que pareciam absorver a luz do ambiente. Esculturas de anjos com lágrimas eternas, caveiras sinistras e gárgulas ameaçadoras completavam a paisagem. Uma névoa perene envolvia todo o local, tão densa que forçava o uso de postes equipados com velas encantadas, cujas chamas emitiam uma luminosidade esverdeada inquietante, mesmo sob o céu diurno.

Luna avançava com cautela pelas trilhas estreitas de paralelepípedos que serpenteavam entre os túmulos. Seu corpo estremecia, tanto pela ansiedade quanto pela atmosfera arrepiante que a cercava. Ainda não tinha visto nenhum fantasma, mas cada sombra e movimento repentino no canto de seu olho a faziam questionar se seu coração suportaria um susto tão grande.

"Concentre-se, Luna. Você é capaz," ela sussurrava para si mesma, sua voz trêmula tentando se sobrepor à palpitação acelerada de seu coração. Com mãos igualmente trêmulas, ela alcançou o bolso de seu moletom roxo e retirou um pedaço de papel meticulosamente dobrado. Nele, estavam listados os nomes de magos e bruxas notórios enterrados ali, cada um seria uma potencial alma forte o suficiente para ser seu familiar.

"Mas, e se eu encontrar um? Como vou convencê-lo a se tornar meu familiar? Não é algo que eu possa forçar, pelo que entendi," murmurou ela, liberando um suspiro profundo e cansado. Sacudindo a cabeça, ela tentou afastar seus medos e incertezas. Por ora, sua missão era encontrar esses elusivos fantasmas; o resto, ela resolveria quando chegasse o momento certo.

Foi nesse momento que Luna percebeu uma silhueta ao longe, iluminada por um brilho etéreo. Ela ficou paralisada, uma mistura de medo e fascínio a percorrendo, antes de se refugiar atrás de uma imponente escultura de um anjo de asas quebradas, envolto em trepadeiras escuras.

"O que estou fazendo?" ela murmurou para si mesma, sua voz tingida de incredulidade. "Eu vim aqui para encontrar fantasmas, não para me esconder deles."

No entanto, à medida que a figura se aproximava, Luna percebeu que não se tratava de um espírito desencarnado, mas de um mago. E ele não estava sozinho; uma comitiva de magos o seguia, todos envoltos em mantos enigmáticos, bordados com símbolos arcanos que pulsavam levemente com energia mística. Uma sensação de desconfiança imediata surgiu no íntimo de Luna. Não era comum encontrar magos errantes em um cemitério, muito menos um grupo com aparência tão intimidadora. Estariam eles em uma missão similar à sua?

Observando-os de seu esconderijo, Luna viu o grupo se dirigir a uma parte mais densamente arborizada do cemitério, um lugar onde as estátuas pareciam ainda mais grotescas e os túmulos mais raros. Uma parte de Luna gritava para que ela mantivesse distância, mas a curiosidade a impulsionou, como uma chama irresistível.

Assim, apesar de um sentimento de inquietação profunda e do risco palpável de se meter em uma situação complicada, Luna decidiu seguir o grupo de magos encapuzados. Movendo-se com a delicadeza, ela avançou silenciosamente, cautelosa para não revelar sua presença, enquanto se embrenhava ainda mais nos mistérios do Cemitério.

~**~

O grupo de magos encapuzados adentrou um túnel natural formado por árvores de troncos retorcidos e folhas descoloridas, que culminava em uma clareira. O lugar estava escassamente iluminado por postes com lanternas de vidro fosco, tornando necessária a intervenção mágica para iluminar adequadamente o ambiente. Esferas de luz flutuavam ao redor dos magos, lançando sombras dançantes nas faces esculpidas em pedra que circundavam o que parecia ser um altar de mármore.

Luna observava a cena de seu esconderijo atrás de uma espessa moita, indecisa se o que estava diante de seus olhos era um túmulo singular ou uma área destinada a rituais secretos.

O líder do grupo, destacando-se pela luminosidade que emanava de suas vestes, retirou o capuz, revelando um rosto enrugado, enquadrado por uma longa barba grisalha e coroado por uma careca reluzente.

"Contemplem, meus seguidores, o túmulo de Orion Arcanum!" exclamou o mago mais velho, seus gestos majestosos enfatizando cada palavra enquanto apontava para o altar de mármore incrustado com fragmentos que cintilavam como estrelas prateadas. "Ele foi um dos magos mais ilustres que este mundo já conheceu. Ah, se tivesse tido tempo, seu nome estaria eternizado ao lado das grandes lendas mágicas de nossa história."

Luna franziu o cenho, rapidamente consultando a lista que havia preparado. O nome 'Orion Arcanum' não estava ali, e ela não se lembrava de tal figura em seus estudos de magia. Intrigada e desconfiada, ela voltou sua atenção ao mago líder, que continuava a falar com um fervor quase religioso.

"Ele foi tirado de nós em sua juventude, mas era um visionário. Foi um dos raros magos a se aventurar na proibida arte da necromancia!" Ele fez uma pausa dramática, e os magos que o cercavam trocaram exclamações surdas de "ohhh", como se estivessem diante de uma revelação divina.

"Mas ele pagou um alto preço por suas investigações na magia que flerta com os limites entre a vida e a morte. Vejam, meus aprendizes, onde Orion Arcanum foi sepultado! Em um recesso oculto deste cemitério, distante dos olhares inquisitivos, como se sua existência fosse uma mancha vergonhosa! Mas não mais... Viemos aqui para exaltá-lo! Viemos aqui para invocá-lo!" exclamou o mago líder, com um fervor quase religioso. O público ergueu as mãos ao alto, repetindo o nome de Orion em uníssono, como um mantra místico.

Luna sentiu um calafrio ao perceber a energia que emanava daquele estranho grupo. Sabia que a necromancia era um ramo pouco popular e até mesmo estigmatizado da magia, o que explicava o apagamento de Orion dos registros históricos. Mas algo naquela cerimônia lhe soava perigosamente errado. O que eles realmente pretendiam?

"Será que eu deveria chamar meu irmão Alberto?" Luna ponderou em um sussurro, ciente de que ele saberia como lidar com a situação e talvez evitar uma catástrofe. O que ela poderia fazer? Ela não podia usar magia. Ela só podia assistir aquilo, sem poder interferir.

"Ei, o que esses sujeitos pensam que estão fazendo? Será que ninguém pode sossegar depois de morto? Já ouviram falar em 'descanse em paz'? Grande farsa, hein?" uma voz soou ao lado dela. Luna virou-se lentamente para encontrar um jovem de cabelos negros salpicados de mechas prateadas. Sua pele era morena e seus olhos eram azuis e cintilantes. Vestia um sobretudo marrom, uma camisa branca desabotoada e calças escuras. Mas o detalhe mais surpreendente era sua aparência translúcida e o modo como ele flutuava ao lado dela: um claro indicativo de que ele era, de fato, um fantasma.

"O que você acha? Devo colocar uma placa dizendo 'Não perturbe' ou 'Sai para almoço'? Você acha que eles entenderiam o recado para me deixarem em paz?" O fantasma cruzou os braços, claramente exasperado.

"V-você é... O-Orion?" Luna gaguejou, sua voz tingida de alarme.

"Dã," ele respondeu, com um ar de impaciência.

"Eles conseguiram te invocar?" Luna perguntou, desviando o olhar dos magos que ainda entoavam o nome de Orion em um mantra fervoroso.

"Eles? Pfff..." O fantasma revirou os olhos, visivelmente desgostoso. "Eu já estava aqui muito antes de essa turma de idiotas aparecer. Já é a terceira vez só neste mês. Deve ser alguma coisa relacionada ao solstício de inverno. Esses caras pensam que precisam de ocasiões especiais para invocar os mortos. Claramente, nunca leram sequer uma linha dos meus trabalhos. A necromancia é uma ciência, não um... quê? Um culto? Um rebanho de seguidores fanáticos? É vergonhoso!"

Luna estava sem palavras, ainda processando o sarcasmo ácido do fantasma, quando o mago líder retomou sua fala.

"Orion, nós iremos honrar o seu legado! Vou despertá-lo do seu sono eterno e..." Ele desenrolou de dentro de seu robe um pergaminho que Luna imediatamente reconheceu. Era um contrato de familiar, semelhante ao que ela carregava em sua própria bolsa. "...irei vinculá-lo a mim! Juntos, seremos poderosos e dominaremos o mundo!" O mago então soltou uma risada sibilante e sinistra, digna de um vilão de romance.

"Aí está. Todos vêm aqui só para isso..." Orion murmurou, resignado. "Para me escravizar! Que tédio!"

Luna sentiu o rosto corar. A franqueza desconcertante do fantasma a fez perceber a incongruência de suas próprias intenções. Embora ela não tivesse vindo especificamente para invocar Orion, seu objetivo não era tão diferente do grupo de magos. Ela nunca havia considerado que um espírito pudesse enxergar a ligação como uma forma de escravidão, e agora se sentia culpada.

"'Oh! Orion! Venha a mim!'" O mago líder entoou, mais cantando do que falando, enquanto erguia os braços para o céu enevoado que pairava sobre o cemitério.

"Basta! Você não é nem um pouco o meu tipo," exclamou Orion, saindo do esconderijo onde Luna estava oculta e puxando-a consigo para a luz. "Esta jovem aqui, por outro lado, é muito mais interessante. Vocês, ocultistas, deveriam ter pensado nisso antes de virem aqui com suas ofertas de contrato. Uma bela ocultista teria sido um incentivo muito melhor do que todo esse cântico macabro. Você realmente acha que vou me vincular a um mago medíocre que claramente quer usar meu poder para se autopromover? Se você não consegue fazer isso sozinho e precisa de um familiar, obviamente é incompetente!"

Luna sentiu os dedos gelados do espírito do mago tocarem sua pele, mesmo através da manga do seu moletom. Era como se o frio mortal ignorasse completamente as barreiras de tecido.

"Quem é ela? Uma rival? Planeja roubar Orion para si?" perguntou o mago líder, apontando para Luna com uma expressão irritada.

"Seu idiota! Por que me arrastou para isso?" Luna exclamou, tentando se soltar do aperto gelado de Orion.

"Bem, se você estava aqui, espiando, é porque claramente tinha algum interesse em se envolver nessa história," respondeu Orion, sorrindo de forma travessa.

"'Orion, glorioso necromante... Assine o seu nome neste contrato!'" O mago líder insistia, aproximando-se cautelosamente do fantasma, como se ele fosse uma criatura a ser temida. "Prometo que, assim, você será libertado da prisão que é este cemitério!"

"Você está preso aqui?" Luna perguntou a Orion, surpresa com a nova informação.

"Sim, estou confinado a este lugar," confirmou Orion. Com sua mão livre, a que não segurava Luna, ele passou os dedos pelos cabelos negros em um gesto que denotava cansaço — embora fosse questionável se fantasmas podiam de fato sentir-se cansados. "Foi toda uma precaução para me conter. Afinal, eu era um mago necromante; era óbvio que eu retornaria do mundo dos mortos de alguma forma, seja como zumbi, Lich ou, neste caso, fantasma." Ao dizer isso, seu tom exalava uma certa vaidade, quase como se ele estivesse se gabando de sua forma espectral. Ele era jovem e atraente, um tipo que, quando vivo, sem dúvida atraía muita atenção.

"Ao assinar esse contrato, você estará livre!" reiterou o mago ancião, cujos asseclas já começavam a cercar Luna e Orion.

"Livre? Minha liberdade estará atrelada ao contrato," Orion retrucou, apontando para o pergaminho enrolado nas mãos do mago. "Imagino que você tenha incluído algumas cláusulas aí para me tornar submisso e, em resumo, seu servo, não é mesmo?"

"Orion, todo familiar é um servo. Você já está morto; não deveria ter outras perspectivas além de servir como um familiar," falou o mago, com um tom de condescendência que Luna imediatamente desaprovou. Era o mesmo tom que ela havia ouvido quando implorou por uma segunda chance após o incidente com a explosão.

“Luna, você é uma IMI, seu futuro não está associado a magia” foi essa as palavras proferidas pelo avaliador que perfuraram o seu coração e destruíram o seu sonho.

"Bem, isso você não sabe!" interrompeu Luna, para a surpresa tanto de Orion quanto do mago. "Ele pode muito bem querer apenas ser um fantasma e aproveitar sua existência etérea. Ele não é obrigado a ser um familiar se não quiser. E definitivamente não deveria ser perseguido por pessoas como você o tempo todo!"

"Menina... O que você sabe? E por que você está aqui? Obviamente você busca algo...” O mago líder indagou, avançando em direção a Luna com uma expressão astuta. Ele tentou enfiar sua mão na bolsa dela de forma abrupta, mas Luna reagiu com um chute instintivo. A ação enviou uma onda de indignação elétrica através dos seguidores do mago, que murmuraram entre si.

"Vocês realmente são de uma falta de educação extrema. Furtando objetos de jovens aparentemente indefesas,” comentou Orion, claramente desaprovando a atitude do mago. Luna, ainda agitada, tentou chutá-lo também, mas seu pé atravessou a perna espectral de Orion, quase a fazendo perder o equilíbrio e cair para trás. Foi paradoxal, já que o fantasma ainda a segurava pelo braço. A única explicação lógica era que Orion devia ter alguma capacidade de controlar a tangibilidade de seu corpo.

"Que droga...” Luna resmungou, irritada e ainda mais contrariada ao perceber o sorriso contido no rosto de Orion.

"Veja, ó grande e glorioso necromante, ela também possui um contrato de familiar. Ela também busca controlá-lo!” anunciou o mago líder, sua voz tingida de triunfo. Ele segurava um pergaminho, roubado da bolsa da garota.

"'Eu não vim aqui por ele!'” Luna retrucou rapidamente, defendendo-se. "Existem outros magos, bruxas e feiticeiros neste cemitério que eu poderia tentar convencer a se tornar meu familiar. Até fiz uma lista!'” Ela então exibiu um pedaço de papel com alguns nomes escritos.

Orion, fazendo uma expressão teatralmente ferida, arrebatou a lista das mãos de Luna. "Isso dói, sabe? Tenho certeza de que eu seria uma opção muito melhor do que... Quem é essa? A bruxa vidente Mãe Diná? Eu sou muito mais interessante do que ela! E essa aqui, Cuca... Ela é uma bruxa em forma de jacaré! Você gostaria de ter algo assim como seu familiar? Que gosto peculiar..."

"Espera um pouco, acho que a decisão deveria ser minha, não é mesmo?” Luna falou, sua voz vibrando com indignação crescente e um toque de embaraço por ter suas intenções tão publicamente expostas.

"Obviamente, ela não possui a sabedoria ou a maturidade necessárias para requisitar Orion, ou qualquer um desses outros fantasmas em sua lista!" o mago líder zombou, seu riso ecoando com arrogância e fazendo Luna corar até as orelhas. "Você realmente acredita que pode simplesmente se aproximar desses seres gloriosos e famosos e pedir que assinem um contrato? Quem você pensa que é?"

Luna mordeu seu lábio inferior, sua mente um redemoinho de dúvidas e incertezas. Ela estava consciente de suas limitações, mas será que estava condenada ao fracasso desde o início?

"Espera um momento!" interrompeu um dos discípulos do mago ancião. "Eu reconheço essa garota. Ela é uma descendente do grande Merlin! Ela revelou seus poderes há alguns dias!"

Luna sentiu um nó se formar em seu estômago, amaldiçoando-se internamente por não ter se disfarçado melhor. Em meio ao caos, ela se esquecera de ocultar seu rosto com o capuz. Seus cabelos castanhos ondulados, com mechas de um tom lilás discreto, e seus intensos olhos verdes, uma característica marcante em sua linhagem, estavam completamente expostos.

"Ah, uma Merlin, aqui?" Orion a examinou com um olhar renovado, seu interesse claramente aguçado.

"Não se impressione tanto, nobre necromante," o mago líder advertiu, seu tom carregado de escárnio. "Se ela é de fato a referida descendente de Merlin, não é algo digno de celebração. Afinal, ela foi responsável por causar uma grande explosão. Ela é um 'Indivíduo Magicamente...'."

"Meu nome é Luna!" a jovem interrompeu, a indignação borbulhando em sua voz. "E o que importa se vocês me rotulam como IMI? Eu ainda sou capaz de praticar magia!"

"Presumo que só com um familiar," o mago ancião retrucou, um sorriso mordaz esticando seus lábios finos. "Quanto desespero... E quanta infantilidade. Quem iria querer se aliar a uma IMI?"

Cada palavra dele parecia ser uma farpa que perfurava a confiança já frágil de Luna, mas ela manteve o olhar firme, determinada a não se deixar abater por sua crueldade.

"Isso sim é fascinante!" Orion exclamou, puxando Luna mais para perto de si. Seus olhos azuis, quase luminosos na penumbra, encontraram os olhos verdes da jovem com uma expressão de genuína admiração. Embora não pudesse sentir calor vindo do espectral corpo de Orion, Luna percebeu seu coração acelerar, seus sentidos inesperadamente aguçados devido à proximidade.

"Orion! Você não deve realmente querer essa menina, que mal pode ser chamada de bruxa, como sua parceira! Eu, por outro lado, sou um mago renomado. A necromancia é uma das minhas especialidades. Ao meu lado, você..." o mago líder começou, sua voz tingida de um nervosismo que denunciava seu desconforto por estar sendo ignorado.

"Ao seu lado, eu provavelmente morreria de tédio. Ou deveria dizer, morreria de novo," retrucou Orion, desviando sua atenção para o mago que o incomodava.

"Agora, ela... Bem, ela parece ser uma companhia muito mais intrigante, talvez até algo mais," continuou Orion, seu olhar se desviando brevemente para uma Luna visivelmente corada.

"E-eu não sou algum tipo de passatempo para você! E quem disse que eu te quero como parceiro? Ou como familiar? Ou... qualquer coisa!" Luna gaguejou, tentando inutilmente controlar o turbilhão de emoções e a sensação de borboletas em seu estômago.

"Isso não vai acontecer!" rosnou o mago líder, tirando da manga de sua longa túnica um punhal de prata que parecia emanar uma bruma mágica. "Orion pertence a mim!"

Para Luna, tudo parecia se desenrolar em câmera lenta. Ela viu o mago e seus discípulos avançando em sua direção. Orion, ao seu lado, fez um gesto amplo com sua mão livre — a outra ainda segurava Luna — e alguns dos ocultistas foram lançados a vários metros de distância. Era um claro indício de que, mesmo sendo um fantasma, Orion ainda detinha poderes mágicos. No entanto, o ataque do mago líder, armado com sua arma amaldiçoada, estava perigosamente próximo.

Foi então que Luna sentiu seu poder despertar. Tal como ocorrera há alguns dias, esse despertar se manifestou em forma de uma explosão colossal. O estrondo arrasou a área, desarraigando árvores, destruindo túmulos e estátuas e deixando uma profunda cratera no lugar onde estiveram. Até a neblina, que parecia ser uma constante na atmosfera do cemitério, foi momentaneamente dispersa, permitindo que raios de sol iluminassem o cenário caótico.

Luna tossiu, levantando uma nuvem de poeira ao seu redor, e então percebeu que ainda estava de mãos dadas com Orion. Não simplesmente segurando, mas seus dedos estavam entrelaçados como se estivessem conectados de alguma forma especial.

"Isso foi incrível! Você acha que consegue fazer de novo?" Orion perguntou, sua voz soando mais como a de uma criança maravilhada do que como a de um poderoso espírito necromante.

"Acho que não seria prudente repetir essa performance," Luna respondeu, examinando o cenário ao seu redor. Ela viu que os magos, embora cobertos por destroços ou lançados para as bordas da cratera, ainda estavam vivos. Um suspiro de alívio escapou de seus lábios.

Subitamente, algo começou a flutuar pelo ar, movendo-se em direção a eles. Era o pergaminho dela, o contrato para vincular-se a um familiar. Com um simples gesto da mão, Orion fez o documento pousar delicadamente em sua palma aberta.

"Bem, acho que devo assinar isto aqui," disse Orion, e Luna olhou para ele, seus olhos verdes arregalados em incredulidade.

"Assinar? O quê? Eu não vim aqui para...," ela começou a objetar.

"Você veio buscar um familiar para estabilizar esse seu poder formidável, não foi? E precisa de um familiar poderoso. Acho que me encaixo bem nessa descrição. Além disso, que poder você tem! Merlin ficaria orgulhoso," interrompeu Orion, um sorriso suave iluminando seu rosto etéreo.

"Merlin teria vergonha, isso sim... Ninguém na minha família jamais precisou de um familiar. Nenhum deles era um IMI," Luna murmurou, baixando os olhos para o chão.

"Ah, mas quem pode dizer se Merlin não era um IMI, só que com outro nome? Eram tempos diferentes; pessoas com grande poder eram apenas consideradas excepções. Eu me lembro de quando Merlin buscou seu próprio familiar, um dragão grande e rabugento," retrucou Orion, capturando a atenção de Luna mais uma vez.

"Você conheceu Merlin?" Luna indagou, surpresa tingindo suas palavras. A ideia de que seu antepassado pudesse ter sido um IMI como ela — algo que nem mesmo sua irmã Catharina sabia — a deixava boquiaberta.

"Posso contar mais depois que assinar este contrato, o que me diz?" Orion estalou os dedos, materializando no ar uma pena cuja ponta estava mergulhada em tinta vermelha.

"Você realmente quer ser meu familiar? Meu parceiro?" Luna questionou, quase como se temesse que aquilo fosse um sonho fugaz.

"Eu adoraria. Algo me diz que ficar ao seu lado será uma aventura e tanto," Orion respondeu, e no rosto de Luna brotou um sorriso radiante.

Com um aceno de cabeça, Luna deu seu consentimento. A pena deslizou pelo pergaminho, e o contrato foi solenemente assinado. No instante em que a tinta tocou o papel, ambos sentiram que algo mais estava selado ali — não apenas uma parceria mágica, mas talvez também um sentimento mais profundo, ainda indefinido. Embora ainda não conseguissem distinguir o que era, eles sabiam que teriam todo o tempo do mundo para descobrir.

Entre a Chuva e o Sol

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