sábado, 20 de abril de 2024

Fangtastic Celebrations

 


As folhas começavam a se desprender da majestosa árvore em frente à casa de Kyle Wilson, um ritual anual que marcava o início do outono. Através da janela panorâmica de seu quarto, ele observava a tapeçaria natural se transformar; as folhas abandonavam o vibrante verde da primavera e do verão para assumir tonalidades de um avermelhado profundo, âmbar reluzente e marrom terroso.

Enquanto a natureza seguia seu curso inevitável, Kyle notava seus pais dando vida ao jardim com decorações de Halloween: caveiras, fantasmas e outras figuras feitas de papelão ou plástico. Os objetos pareciam antiquados, desgastados não por algum truque de design, mas pela realidade do tempo; esses enfeites haviam sido usados e reusados ao longo de anos pela família Wilson.

O cenário era, em si, um pedaço palpável de nostalgia, um vislumbre de outonos passados que aquecia o coração. No entanto, uma onda de ansiedade varria o estômago de Kyle, enchendo-o de um desconforto indefinível. Ele se lembrava de que, exatamente naquele período do ano anterior, havia deixado a universidade e voltado para a casa dos pais, após abandonar o curso de Direito. Agora, cada folha que caía, cada enfeite que surgia no jardim, servia como um lembrete irritante, um alarme silencioso, de que um ano inteiro havia passado desde que tomara aquela decisão transformadora.

"O que vou fazer agora?" Kyle se perguntava em voz alta. A questão havia se repetido em sua mente durante todos esses meses, mas naquele dia em particular, o peso da indagação se tornava insuportavelmente mais pesado, mais desesperador. Foi nesse exato instante que seu celular irrompeu com um toque estridente. O som era a música tema do filme "Psicose," e fez seu coração saltar. Resmungando, Kyle atendeu o telefone, percebendo que seus pais haviam mudado o toque do aparelho, sem sua permissão, para entrar no espírito do Halloween.

"Sim?" Ele respondeu, sem conseguir ocultar a frustração em sua voz.

"Kyle? Liguei em um mau momento? Você já está sofrendo com uma dor de estômago por excesso de doces?" Uma voz familiar indagou.

"Tia Mary?" Ele franziu o cenho. Era raro receber uma ligação dela; na verdade, nem sabia que ela tinha seu número de telefone. Tia Mary era o tipo de pessoa que aparecia de surpresa à sua porta, trazendo presentes estranhos e histórias ainda mais peculiares. Sua mãe, irmã de Mary, a descrevia como um espírito livre, descrição com a qual Kyle concordava plenamente.

"Quem mais seria? Não reconhece mais a sua tia favorita?"

Um sorriso se formou nos lábios de Kyle, trazendo um leve alívio ao seu ânimo.

"Bem, faz algum tempo que não os visito... então, entendo o lapso de memória," ela continuou. "Mas mesmo assim, sou sua única tia!"

"Desculpe, Tia Mary. Claro que me lembro de você. Como poderia esquecer? O que me surpreende é você me ligar... Aconteceu algo?" Kyle quis saber.

"Sim, aconteceu algo! Estou precisando de ajuda!" exclamou ela, instigando uma onda de apreensão em Kyle.

"O que houve? Existe algo em que eu possa ser útil?"

"Absolutamente! É exatamente por isso que estou te ligando. Você é o único que pode me ajudar, meu sobrinho querido!" A cada palavra dela, a curiosidade e a desconfiança de Kyle cresciam. O que poderia ser tão urgente que ele fosse o único capaz de ajudar?

"Você ainda está desempregado, certo?" inquiriu Tia Mary, fazendo Kyle franzir novamente o cenho.

"Er... sim, estou."

"Perfeito!" exclamou ela, agora visivelmente animada.

Um calafrio sutil percorreu a espinha de Kyle, preenchendo-o com uma mistura de antecipação e incerteza.

~**~

 

O carro tremia e balançava, como se estivesse dançando uma valsa caótica com a estrada esburacada e selvagem pela qual avançavam. Kyle segurava firmemente a alça acima da janela, no lado do passageiro, enquanto tentava decifrar a tela do celular com sua outra mão. O mapa mostrava um percurso que ele só podia descrever como "rumo ao desconhecido." Ao seu lado, Tia Mary, uma mulher de cabelos ruivos indisciplinados tingidos com mechas prateadas e óculos estilo 'fundo de garrafa', emitia exclamações entusiasmadas, como se estivesse domando um touro selvagem.

"Tia Mary, você tem certeza absoluta de que estamos indo para o lugar certo? Tem certeza de que pegou o endereço correto?" indagou Kyle, já sentindo o enjoo subir por seu estômago.

"Completamente! Meu chefe adora lugares assim, remotos e inóspitos. Combina perfeitamente com o espírito do Halloween, você não acha?" ela respondeu, visivelmente animada.

"Ah, sério? Você acha que capotar em uma estrada empoeirada faz parte do espírito do Halloween? Porque esse é o jeito mais rápido de chegar ao nosso destino de final de estrada, ou melhor, final de vida! Quem precisa de sangue falso e cicatrizes de maquiagem quando você pode ser o astro de um acidente real e autêntico? Ganharíamos o primeiro prêmio em qualquer concurso de fantasias... claro, assumindo que sobrevivemos para contar a história e dançar 'Thriller' na tal festa!" Kyle retrucou, seu tom impregnado de irritação. A resposta arrancou de Tia Mary uma gargalhada quase maníaca, que soou ainda mais estranha em meio ao balanço frenético do carro.

Felizmente, o chacoalhar do carro cessou após algum tempo. De maneira abrupta, Tia Mary freou o veículo, fazendo com que Kyle fosse arremessado para a frente devido à inércia. Se não fosse pelo cinto de segurança, ele teria sido catapultado através do para-brisa.

"Chegamos!" exclamou Tia Mary, vibrante. Kyle então teve a chance de realmente observar o lugar onde haviam parado. Abaixando o vidro da janela, ele notou que estavam em uma extensa clareira, cercada por uma floresta densa e escura. Erguendo-se como uma visão imponente no centro estava uma grande mansão de estilo vitoriano. A construção, nitidamente antiga, parecia desafiar o tempo, mantendo-se altiva e imponente em sua solidão.

"Isso... parece o cenário de um filme de terror," murmurou Kyle. "Só faltam a chuva, a névoa e os trovões."

"Ah, mas meu chefe garantiu que no dia 31 tudo isso vai acontecer, para tornar tudo mais autêntico para a grande noite!" afirmou Tia Mary. Kyle a encarou como se ela fosse louca. Como poderia o tal chefe controlar ou prever o clima para o fim de outubro?

"Já que estamos falando de seu trabalho... e de seu chefe," Kyle começou, introduzindo o tópico que deveriam ter explorado antes de ele concordar com essa odisseia de carro rumo ao desconhecido.

"Nosso trabalho e nosso chefe, querido. Afinal, você agora é meu colega de trabalho, esqueceu?" retrucou Tia Mary, já saindo do carro, sem dar espaço para mais perguntas. Desconcertado, Kyle se desvencilhou rapidamente do cinto de segurança e seguiu sua tia, ávido por mais informações. Ele queria entender que tipo de empresa era essa, o que exatamente fariam lá e quem era esse misterioso chefe. Sim, ele havia concordado com algo sem ter o mínimo conhecimento do contexto em que estava se inserindo.

"Devia ter pensado duas vezes antes de deixar o desespero ofuscar meu bom senso e cautela," murmurou Kyle para si mesmo, enquanto saía do carro e se encaminhava em direção à imponente mansão que poderia muito bem ganhar o título de mal-assombrada. Um alívio momentâneo o invadiu ao perceber que não estavam sozinhos; outros veículos, desde carros modernos a trailers, adornavam o espaço amplo em frente à mansão. Cada um deles ostentava um logotipo peculiar: um morcego rosa. Certamente não algo que Batman usaria para seu sinal noturno.

Sua tia lhe havia dito de forma um tanto vaga que trabalhava para uma empresa chamada "Fangtastic Celebrations", especializada em organizar festas e eventos. No entanto, Kyle jamais imaginou que tais celebrações ocorreriam em um local tão inóspito e misterioso.

O jovem também não pôde deixar de notar as figuras peculiares que seriam seus futuros colegas de trabalho. Eles carregavam caixas e diversos materiais em direção à mansão. Alguns estavam envoltos em ataduras da cabeça aos pés, como múmias em movimento. Outros exibiam uma quantidade impressionante de pelos cobrindo seus corpos, e curiosamente, usavam o que pareciam ser coleiras em seus pescoços. Era tudo extraordinariamente estranho, amplificando as já altas reservas de Kyle quanto à aventura em que se metera.

"Er... Tia Mary..." Kyle chamou, sua voz tingida de nervosismo. Sua tia se virou para ele, olhando por baixo dos seus óculos de lentes espessas, que quase pareciam um par de lupas.

"O que foi, Kyle? Já está com saudades de casa?" ela questionou, um sorriso largo iluminando seu rosto.

"Não é exatamente saudade o que estou sentindo..." Kyle murmurou, desviando de uma dupla peculiar de trabalhadores que carregavam pesadas caixas de som. O primeiro, um homem de pele levemente esverdeada e salpicada de verrugas, tinha uma toalha pendurada no pescoço que, Kyle poderia jurar, ocultava guelras. A segunda, uma mulher extraordinariamente alta, ostentava uma vasta cabeleira roxa que parecia brilhar à luz do sol.

"Tia... O que... são..." Kyle começou a formular a pergunta que borbulhava em sua mente, mas foi abruptamente interrompido. As imponentes portas da frente da mansão se abriram de súbito, e de lá emergiu um rapaz com um visual chamativo. Ele usava um roupão cor-de-rosa brilhante, um chapéu de sol adornado com lantejoulas reluzentes, calças de couro incrivelmente apertadas e pantufas da mesma cor rosa do roupão. Seus óculos escuros eram quase um escudo, ocultando seus olhos, e sua pele era de uma palidez quase etérea.

"Diga-me, para que serve o dia, hein? Só para me dar dor de cabeça e irritação? E esse sol! Ele não se enxerga? Porque eu o enxergo muito bem, ou melhor, não enxergo! Se eu olhar para ele, sinto minha pele queimar, literalmente! Eu digo a vocês, dia e sol são coisas superestimadas! Quem precisa deles?" o homem esbravejava, como se realizasse um monólogo para uma audiência invisível em um teatro imaginário.

"As plantas..." Kyle achou-se respondendo, embora soubesse que todo aquele discurso deveria ser apenas uma série de perguntas retóricas. O homem virou-se para ele, visivelmente surpreso por alguém ousar interromper sua lamentação.

"Desculpe, como é?" ele questionou, aproximando-se de Kyle, que se esforçou para não recuar ao perceber a estatura impressionante da figura.

"E-eu quis dizer que as plantas necessitam de luz para realizar fo-fotossíntese. Ao fazer isso, elas p-produzem açúcares que serão consumidos por outros organismos na ca-cadeia alimentar, incluindo nós. Portanto, a luz é fundamental para a manutenção da vida na Terra," gaguejou Kyle, nervoso sob o olhar penetrante do enigmático homem. Embora, na verdade, fosse difícil dizer se ele realmente o estava encarando; aqueles óculos escuros tornavam tudo muito incerto.

Alguns segundos que se estenderam como eternidades preencheram o ar tenso da entrada da mansão. Kyle engolia a seco, seus olhos fixos no homem à sua frente que parecia agora perdido em pensamentos profundos. Sua tia, notavelmente nervosa, roía as unhas — uma imagem perturbadora, considerando que até então ela havia sido o retrato da despreocupação. Quem era esse homem para desencadear tal inquietação nela? Kyle temia estar frente a frente com seu futuro chefe, e temia ainda mais ter causado uma péssima primeira impressão.

"Você tem um ponto válido," finalmente disse o homem vestido em rosa exuberante. "Vamos dizer que eu também sou afetado pelos benefícios da luz solar indiretamente, já que também faço parte dessa cadeia alimentar. Sou, você poderia dizer, um predador no topo da cadeia, um consumidor de... presas especiais, se me entende." Ele abaixou os óculos escuros apenas o suficiente para travar seus olhos nos de Kyle. Foi nesse instante que Kyle percebeu as írises avermelhadas e decididamente inumanas do homem, fazendo com que soltasse um guincho abafado de horror.

"Vampiro?" sussurrou Kyle, surpreso com a sua própria conclusão.

"Mary, minha querida..." O homem pareceu ignorar o efeito que sua revelação teve sobre Kyle e virou-se para a tia dele. "Então este é o meu novo empregado? Seu adorável sobrinho, Kyle Wilson?"

"Adorável?" Kyle não conseguiu esconder a indignação em sua voz, superando o receio e medo que sentira segundos antes.

"Sim, adorável. Sua tia fez questão de me mostrar todas as suas fotos de infância e usou com entusiasmo o adjetivo 'adorável' para descrever você, Sr. Wilson," o homem respondeu com um sorriso, revelando caninos proeminentes. "Devo dizer que ainda estou ponderando sobre a adequação desse adjetivo..."

"O quê? Isso terá algum impacto na minha contratação ou não?" Kyle se viu perguntando isso, mesmo diante das claras evidências da natureza sobrenatural do ser à sua frente. Independentemente do quanto a vestimenta rosa-choque do homem pudesse amenizar sua aura sombria, a necessidade urgente de Kyle por um emprego parecia ser o fator predominante em sua mente.

"Sr. Wilson, você deve ter notado que a minha empresa é um tanto peculiar," começou o homem, que Kyle agora sabia ser um vampiro. Ele fez uma pausa dramática antes de continuar, "Ao contratar um humano," aqui ele deu ênfase especial à palavra 'humano', "nós geralmente seguimos um procedimento de indicações. Isso é para evitar tanto o pânico quanto complicações legais. Além disso, somos uma empresa com fortes laços familiares; valorizamos tanto a nossa própria privacidade quanto a daqueles que nos contratam."

"E o que isso tem a ver com minhas fotos de bebê?" Kyle indagou, cruzando os braços sobre o peito. Sim, uma parte da sua mente estava gritando para ele focar no fato de estar conversando com um vampiro, uma criatura conhecida por se alimentar de humanos. No entanto, outra parte de sua consciência estava completamente indignada com o uso impróprio de suas fotos de infância em um processo seletivo do qual ele não tinha a mínima ideia de que fazia parte.

"Bem, sua tia também me apresentou seu portfólio," disse o vampiro, parecendo ignorar intencionalmente as perguntas de Kyle sobre suas fotos.

"Meu portfólio?" Kyle lançou um olhar para sua tia, que sorriu de forma culpada. Ele se lembrava vagamente do portfólio que tinha feito durante o ensino médio, quando ainda considerava a faculdade de artes visuais. Seus pais não se opuseram, mas seus professores e o conselheiro acadêmico se esforçaram para dissuadi-lo. Eles enfatizavam que, com seu histórico escolar cheio de notas altas, ele deveria aspirar a algo mais 'respeitável'. Foi assim que acabou se inscrevendo em Direito, o que levou a sua subsequente desilusão e falta de motivação na vida.

"Sim, humano. Seu portfólio de arte. Muito impressionante, aliás. Gostei particularmente dos homens meio pelados," disse o vampiro com um sorriso amplo, fazendo com que Kyle corasse da cabeça aos pés, rivalizando com seus cabelos ruivos.

"Eram esboços de estátuas gregas e romanas!" Kyle exclamou, um pouco mais alto do que pretendia.

"Então seja, mas devo dizer que fiquei impressionado. E minha empresa precisa justamente desse olhar artístico. Eu normalmente cuido dessa parte, como Mary bem sabe, mas é impossível estar em todos os lugares ao mesmo tempo. E não, a onisciência não é um dos meus dons vampíricos," disse ele, começando a caminhar em direção ao interior luxuoso da mansão, gesticulando para que Kyle e Mary o seguissem.

Ao entrar, Kyle ficou perplexo com o interior da residência. Um grandioso lustre de cristal pendia majestosamente sobre o hall de entrada. Duas escadarias simétricas, adornadas com corrimãos de madeira entalhada, levavam ao segundo andar, cujo conteúdo ainda era um mistério. Grandes janelas de vitrais, ainda que embaçadas pelo pó dos anos, banhavam o ambiente com uma luz multicolorida que parecia incomodar seu novo chefe vampiro.

Eles foram conduzidos a um vasto salão de festas. As janelas do salão eram ocultadas por pesadas cortinas empoeiradas e mofadas. Ali, Kyle observou alguns funcionários, envoltos em ataduras que pareciam tão antigas quanto as cortinas, limpando o chão e espanando as paredes e móveis. A apatia com que realizavam o trabalho fez Kyle suspeitar que a meta não era realmente tornar a mansão impecável; afinal, uma festa temática de Halloween se beneficiaria de um certo ar de descuido.

"O que vocês pensam que estão fazendo?" o vampiro praticamente berrava, horrorizado, ao ver outros funcionários. Um deles poderia ser descrito como uma múmia, mas trajava roupas de hip-hop. O outro, um homem alto e musculoso, com pelos cobrindo grande parte de seu corpo, tinha olhos de um tom dourado peculiar. Ambos estavam pintando a área em torno da ampla lareira da sala, usando uma cor absolutamente inadequada: azul bebê.

"Quantas vezes já disse a vocês que essas cores não são apropriadas para uma festa de Halloween?" O vampiro levou a mão ao rosto, massageando as têmporas. Depois, virou-se para Kyle. "Explique para eles, Kyle. Este sol está me dando uma enxaqueca terrível!" resmungou o vampiro, acenando para que o jovem humano tomasse a palavra.

Pego de surpresa, Kyle hesitou momentaneamente. Não só estava assumindo uma responsabilidade para a qual não estava preparado, mas também estava diante de criaturas sobrenaturais poderosas. E se elas reagissem mal ao que ele tinha a dizer? Sua tia, ao seu lado, fez um sinal de 'ok' com a mão, o que ele interpretou como um incentivo para falar.

"As cores tradicionais do Halloween são laranja, preto, roxo e verde. O laranja é associado à colheita e ao outono, enquanto o preto representa a morte e o desconhecido, refletindo o espírito sombrio do feriado. O roxo está ligado ao místico e ao sobrenatural, e o verde remete a monstros e bruxas. Cores pastéis como rosa claro, azul bebê e amarelo claro são geralmente consideradas inadequadas para a ocasião, pois são muito suaves e não condizem com o tema," explicou Kyle, sentindo o suor frio percorrer seu corpo.

"Faz sentido," concordou a múmia. "Mas a culpa é toda do Larry, ele que escolheu essa tinta."

"Bem, eu sou um lobisomem. Vejo o mundo principalmente em tons de azul e amarelo e não consigo distinguir entre vermelho e verde. Como esperam que eu escolha um bom esquema de cores?" rosnou Larry em sua defesa. "Só fiz isso porque você, Ramses XII, estava com preguiça de pegar a tinta!"

"Eu só não queria sujar minhas ataduras," resmungou Ramses XII, embora segurasse um pincel e tivesse manchas de tinta azul espalhadas por suas ataduras, o que tornava sua desculpa bastante fraca.

"Vê o que eu tenho que suportar?" o vampiro lamentou, exagerando o drama em sua voz para Kyle. "Não posso ficar de olho em cada pequeno detalhe. Ainda tenho que organizar outros aspectos da festa, como o buffet e negociar o cachê das bandas que vão se apresentar. De qualquer forma, Gaspar?"

Com um estalar de dedos, uma pasta contendo documentos levitou até suas mãos. Kyle vislumbrou uma figura etérea e esbranquiçada, com uma forma vagamente humanoide, flutuando brevemente no ar enquanto transportava o objeto. Seria um fantasma?

"Então, aqui estão os planos para a decoração da mansão," disse o vampiro, passando a pasta para um Kyle ainda perplexo e ansioso. "Sua tarefa é garantir que tudo aconteça conforme planejado. Supervisione e evite desastres!" Ele disse isso com um olhar reprovador em direção à tinta azul que escorria pela parede.

"Eu... eu não tenho experiência com..." Kyle começou, mas foi interrompido pelo som estridente da música "Feed My Frankenstein" de Alice Cooper. Seu chefe prontamente atendeu seu telefone e iniciou uma conversa numa língua estrangeira.

"Você vai dar conta do recado! Lembra quando você era responsável pelo grêmio estudantil? As festas e eventos que você organizava eram incríveis!" Tia Mary sussurrou, seus olhos brilhando com entusiasmo enquanto levantava os polegares em sinal de aprovação. Antes que Kyle pudesse contestar, apontando a discrepância entre organizar atividades em uma escola de ensino médio e uma mansão, ela foi interrompida pelo chefe da empresa. Um aceno sutil da cabeça deu a entender que era hora de uma reunião. Tia Mary se afastou rapidamente, deixando Kyle sozinho, agarrando uma pasta volumosa de documentos com ambas as mãos.

"Esperem!" Kyle exclamou, fazendo um esforço hercúleo para manter o pânico fora de sua voz. "Eu nem sei o seu nome!" referiu-se ao vampiro, que era seu novo chefe. Até então, não haviam sido formalmente apresentados, embora fosse óbvio que o vampiro soubesse muito mais sobre Kyle do que o contrário.

"Ah, é verdade..." o vampiro entregou seu celular para Tia Mary e se aproximou de Kyle. A proximidade fazia o coração de Kyle acelerar, tanto pela diferença de altura quanto pela aura sobrenatural que emanava daquele homem.

"Meu nome é Maximus Vrykolakas, mas todos aqui me chamam de Max," disse ele, inclinando-se graciosamente para pegar a mão de Kyle e beijá-la suavemente. "É um prazer tê-lo conosco, Kyle Wilson."

O gesto teria sido quase romântico se não fosse por uma série de eventos inesperados que se desenrolaram quase que instantaneamente. Primeiro, um pedaço de reboco do teto despencou, acertando Max e derrubando seu chapéu elegante. Em seguida, os papéis da pasta de Kyle se espalharam pelo chão; segurá-la com uma mão só por tanto tempo havia sido uma tarefa impossível.

Nesse cenário de caos absoluto, Kyle não pôde conter uma risada. Estava, sem dúvida, em uma situação completamente inusitada. Max olhou para ele, seus cabelos salpicados de pedaços de reboco e seus óculos escuros agora descansando no chão, e também sorriu. Era, sem dúvida, uma forma bastante peculiar de começar o primeiro dia de trabalho.

 

~**~

 

Os dias subsequentes deslizaram com uma surpreendente falta de estresse, uma revelação que pegou Kyle de surpresa. Apesar de conviver com uma variedade eclética de seres sobrenaturais — criaturas que poderiam facilmente figurar nos pesadelos de qualquer pessoa comum — ele rapidamente notou que, no final das contas, eles eram muito semelhantes aos seres humanos. Traziam consigo anseios e desejos, peculiaridades e hobbies, e até mesmo receios e temores. De alguma forma, aquelas diferenças flagrantes, tanto físicas quanto místicas, tornaram-se quase triviais.

Ele se pegou desenvolvendo laços genuínos com essas entidades improváveis. Jantava com a equipe de decoração, debatia cinematografia — curiosamente evitando o gênero de terror — e trocava impressões sobre séries de TV, músicas e até memes do YouTube. Uma camaradagem que ele não previra, mas que agora se tornava uma parte cativante de seu dia a dia.

À medida que o final do mês se aproximava, o progresso na decoração da mansão assumia um ritmo quase vertiginoso. Claro, contar com a magia de bruxas e bruxos, a força bruta de lobisomens e a incansável assistência de fantasmas certamente acelerava as coisas muito além do que seria humanamente possível.

Mas o que realmente maravilhou Kyle foi o ressurgimento de uma sensação há muito esquecida: a pura e simples diversão. E enquanto ele se perdia nesse devaneio, sentado no trailer que dividia com sua Tia Mary, saboreando o seu café da manhã, uma notificação bizarra chamou sua atenção.

Sem qualquer aviso, a pequena TV do trailer se ligou espontaneamente. A tela mostrava a imagem de um poço sombrio. Ele assistiu, estupefato, mas não apavorado, enquanto uma mulher com longos cabelos negros escondendo seu rosto saía daquele poço de maneira desconcertante. Ela avançou em direção à tela em um ritmo lento e cambaleante. Então, de maneira tão surreal quanto perturbadora, a figura emergiu completamente, caindo desajeitadamente no estreito espaço da cozinha do trailer.

"Bom dia, Sadako," cumprimentou Kyle, surpreso pela própria calma e naturalidade. Esse contraste com seu primeiro encontro — preenchido pelo tipo de terror que congela o sangue — não passou despercebido. Ele estava começando a se adaptar a este novo mundo, e talvez, apenas talvez, estivesse até começando a gostar dele.

"Olá, Kyle", sussurrou a mulher, levantando-se delicadamente. Ela afastou o longo cabelo do rosto, prendendo-o atrás da orelha e revelando uma face asiática de beleza surpreendente, embora com uma palidez quase azulada.

"O que temos agendado para hoje?" Kyle indagou, saboreando um croissant e oferecendo outro a Sadako, que aceitou com sua típica hesitação.

"Kyle, você não conferiu o calendário? Hoje é 31 de outubro... Halloween", disse ela, seu sussurro suave ainda presente. "Vim te avisar que Max estava à sua procura para organizar sua fantasia."

"Já estamos no dia 31?" Ele expressou surpresa, conferindo a data em seu celular e ficando atônito com a confirmação visual. "Bem, as decorações estão praticamente prontas..."

"Estão completas, Kyle. Gaspar e os fantasmas deram os últimos retoques ontem à noite", informou ela, saboreando seu croissant em pequenas mordidas.

"Uau... Já é dia 31..." murmurou, ainda desacreditado. "Espera, você disse que Max está me procurando? Ele mencionou uma fantasia?"

"Sim, foi o que ele disse", confirmou Sadako.

"Mas... Por quê?" A pergunta de Kyle pairava no ar quando, subitamente, a porta do trailer se abriu com um rangido suave e Max adentrou o espaço. Ele agora trajava uma vestimenta menos extravagante do que no primeiro dia em que se conheceram, mas ainda assim, distinta. Vestia um moletom rosa com o símbolo da empresa – um morcego rosa estilizado – bordado no peito, calças folgadas da mesma coloração e nos pés, exibia sandálias com estampas de gatinhos, um detalhe que Kyle notou quase imediatamente. Os cabelos escuros de Max estavam ocultos sob um boné.

"Kyle! Que bom que está acordado!" Exclamou Max, com uma energia contagiante, aproximando-se rapidamente e acenando para Sadako. "Temos muita coisa para fazer!"

"A decoração já terminou, eu imagino que não tenho nada para..." Kyle começou, mas foi interrompido por Max.

"Não, isso! Temos que nos arrumar para a festa. Eu já encomendei a minha fantasia, agora devemos pensar na sua. Sinto muito por não termos discutido isso antes! Eu realmente esqueci, mas sem problemas, ainda temos tempo," tagarelava Max, gesticulando com as mãos, sua animação era palpável.

"Espera, Max... Eu vou participar da festa?" Kyle inquiriu, franzindo o cenho, uma pontada de surpresa tingindo sua voz.

"Óbvio que vai participar. Todos os funcionários vão participar. Mas você é um caso especial..." Max falou, seus olhos brilhantes fixando-se nos de Kyle, que ainda parecia confuso com a situação.

"Sou?" Kyle elevou o croissant em direção à boca, mas antes que pudesse dar uma mordida, Max se aproximou, mordiscando o referido croissant, causando uma pausa cômica no gesto de Kyle.

"Sim..." sussurrou Max, seus olhos ainda fixos nos de Kyle com uma intensidade que fez o coração do humano acelerar, não de medo, mas de uma excitação inusitada. "Você é o meu convidado, o meu par para a festa."

"Vou voltar para a TV," anunciou subitamente Sadako, "não vou ficar aqui segurando vela." Dizendo isso, ela adentrou de maneira sobrenatural na referida TV, ainda segurando seu croissant meio comido.

Kyle pigarreou, sentindo-se levemente embaraçado, mas Max sorria, imperturbável frente à insinuação feita pela assistente do humano.

"E... Que fantasia devo usar?" indagou Kyle, sentindo-se estranhamente tímido diante de Max.

"Devemos usar fantasias combinando! Eu escolhi uma fantasia de Homens de Preto, só que, em vez de preto, vou usar rosa... Você poderia se fantasiar de... sei lá... um extraterrestre? Um ET rosa!" brincou o vampiro, arrancando um sorriso dos lábios de Kyle.

"Deixe que eu escolha minha fantasia, sim? Não confio nas suas sugestões... E nada de rosa!" enfatizou Kyle, deixando-se ser conduzido pelo já elétrico vampiro.

~**~

Apesar de ter dedicado semanas a fio decorando a mansão, nada o tinha preparado para o espetáculo visual que agora se desdobrava diante de seus olhos. A mansão resplandecia sob a incandescência de luzes roxas e laranjas que lançavam um brilho etéreo sobre a estrutura. Parte da mansão havia sido cuidadosamente reformada, mantendo-se algumas janelas quebradas e resquícios de poeira e teias de aranha como toques de um charme decadente. O contraste entre o antigo e o novo era evidente: paredes recém-pintadas e papel de parede renovado se fundiam harmoniosamente ao ambiente envelhecido. Um véu de névoa fantasmagórica envolvia o ambiente, criando uma atmosfera misteriosa e inquietante. A cereja do bolo era um pequeno cemitério cenográfico que fora incorporado à paisagem ao redor do edifício, complementado por uma chuva suave e o estrondo ocasional de trovões ao longe. Era evidente que Max tinha conseguido conjurar o ambiente perfeito para a festa de Halloween.

Max, o anfitrião impecável, ostentava um terno rosa chique, óculos escuros estilosos e empunhava uma réplica perfeita de uma das armas icônicas do filme Homens de Preto em uma mão. Na outra, segurava um guarda-chuva, oferecendo abrigo a Kyle, que, com um toque de humor, optara por se fantasiar de Conde Drácula, só para provocar uma pitada de irritação em Max.

"Pelo menos você está mais atraente que Bela Lugosi," comentou Max, com um brilho travesso nos olhos ao ver o resultado final da fantasia de Kyle. O traje de Kyle era uma mistura de elegância e tradicionalismo, com uma capa negra longa e aveludada, um colete carmesim ricamente bordado, e uma camisa de linho branca. A maquiagem pálida e os caninos afiados completavam o visual, tornando a provocação a Max ainda mais deliciosa.

Kyle absorvia a atmosfera vibrante que envolvia o ambiente. A presença dos convidados, uma mistura eclética de seres sobrenaturais e humanos, criava um mosaico visual fascinante. Cada figura, adornada com fantasias criativas, contribuía para o cenário festivo e inclusivo. A festa estava aberta a todos, um testemunho vivo de diversidade e aceitação. Uma onda de orgulho inundou Kyle ao contemplar o resultado final de seu esforço, mas essa emoção foi tingida por uma pitada de apreensão. Ele fora contratado apenas para esse evento. O que o futuro lhe reservava? Será que voltaria para a monotonia de sua vida anterior, abrigado na casa dos pais, desprovido de perspectivas emocionantes?

"Você sabe," Max começou a falar, hesitante, "tenho outro evento para organizar. Será uma festa de Ação de Graças para uma família de... bem, perus gigantes. Sim, é estranho, mas eles pagam bem. Seria interessante... se você quisesse... participar de mais um projeto insano da minha empresa. Compreendo se não quiser... Afinal, você deve ter outras cois..."

"Eu quero!" Kyle exclamou, interrompendo o tagarelar nervoso de Max. "Eu adoraria trabalhar em mais projetos loucos ao seu lado... Max."

A face de Max se iluminou com um sorriso radiante, que fez o coração de Kyle palpitar um pouco mais rápido. O rubor que tingiu as bochechas de Kyle não pôde ser ocultado, mesmo sob a camada generosa de maquiagem que tornava sua pele pálida.

"Fico feliz... E... Que tal comemorar isso, hum? Temos uma festa de Halloween para aproveitar!" Max exclamou, já arrastando Kyle entusiasticamente para o interior da mansão, onde a música ecoava pelas salas e corredores, prometendo uma noite inesquecível.

A simpatia de São João

 


Ela arrumou uma pequena mesa em sua casa com cuidado e atenção aos detalhes. Cobriu-a com uma toalha limpa, delicadamente estampada com margaridas coloridas. Além disso, cuidadosamente arranjou os copos e talhares sob a mesa, criando uma mesa posta para duas pessoas. Na cabeceira, duas velas foram acesas, trazendo uma atmosfera acolhedora e romântica ao ambiente.

Com todo o carinho, ela começou a servir os pratos típicos nordestinos do período junino. As comidas juninas são uma verdadeira festa para os sentidos, repletas de sabores autênticos e ingredientes que remetem à tradição e cultura. Ela preparou uma seleção de iguarias irresistíveis, que proporcionam uma experiência gastronômica única. Entre os pratos, destacam-se a canjica, o arroz doce e a pamonha.

Tudo estava organizado com cuidado e precisão. Joana tinha feito tudo de acordo com o ritual. No entanto, ela não pretendia comer o que fora servido, nem estava esperando alguém. Na verdade, há muito tempo ela não tinha companhia. Com quase 40 anos, sentia a pressão social para encontrar o que chamam de "alma gêmea". A maioria de suas amigas estava casada, grávida ou já tinha filhos. E Joana? Era considerada a solteirona pela qual todos sentiam pena e fofocavam.

Mas hoje seria diferente. Era véspera de São João, uma data especial, e o momento ideal para colocar em prática uma antiga tradição de adivinhação. Segundo suas pesquisas e relatos das anciãs de sua família, quando Joana fosse dormir, ela teria um sonho revelador sobre o homem com quem iria se casar no futuro.

Tudo estava preparado e agora só restava que ela se deitasse para dormir. Ansiosa, Joana deitou-se na cama, aguardando o que seu sonho revelaria. Ela se lembrava de que era importante ter cuidado ao interpretar o sonho. Se ela aparecesse à mesa, compartilhando uma refeição ao lado do noivo, isso indicaria que se casaria. Apenas essa revelação já traria um certo alívio, renovando suas esperanças para o futuro de sua vida amorosa.

Deitada, Joana fixou o olhar no teto. A porta do quarto encontrava-se entreaberta, permitindo que a suave luz das velas na sala de estar projetasse sombras no teto. As sombras dançavam e ganhavam vida, formando figuras enigmáticas que pareciam contar histórias ocultas. Era como se um espetáculo misterioso se desenrolasse acima dela. Joana se questionava se poderia desvendar algum presságio a partir dessas figuras sombrias. Seriam elas mensageiras de seu futuro? Quando finalmente alcançaria o sono? E se a inquietude a mantivesse acordada? Seria esse um sinal de que nunca encontraria seu par, que o amor seria um destino negado?

Então, ela ouviu: o som dos talheres raspando nos pratos, o ruído dos copos sendo preenchidos com líquido, o arrastar das cadeiras. Joana sentiu seu coração acelerar. Será que alguém havia invadido sua casa? Isso só poderia demonstrar o quão azarada ela era.

No entanto, se fossem realmente ladrões, será que eles se dariam ao luxo de parar para comer o jantar cuidadosamente preparado por ela? Não seria mais provável que eles estivessem interessados em vasculhar a casa em busca de riquezas? Com essas dúvidas pairando em sua mente, Joana tomou coragem e decidiu se levantar, caminhando lentamente em direção à sala.

Havia de fato alguém sentado à mesa. No entanto, a iluminação, mesmo com as velas acesas, não era suficiente para identificar as feições ou a vestimenta da pessoa. Joana apenas sabia que se tratava de um homem.

Joana esperou para ouvir se havia mais alguém na residência, mas não ouviu nada. Aparentemente, só havia aquele homem, que se empanturrar com as oferendas preparadas por ela.

Agora, Joana sentia-se irritada. Ela tinha se esforçado muito para montar todo aquele cenário e não permitiria que tudo fosse destruído por um desconhecido mal-educado.

Determinada, ela se aproximou da mesa, fazendo as velas tremerem, o que tornou o ambiente ainda mais escuro e sinistro. No entanto, o homem parecia não notar a presença de Joana.

Ele comia vorazmente, parecendo um faminto desesperado. Utilizava tanto os talheres quanto as mãos, devorando a comida de forma quase animalesca. Joana podia ouvir claramente o som alto e intenso de sua mastigação, ecoando pela pequena sala. Cada mordida parecia ressoar de forma perturbadora, preenchendo o ambiente com um ruído desconcertante.

Enquanto isso, as velas tremiam e vibravam, mesmo sem a presença de qualquer corrente de ar. A chama dançava de maneira inquieta, lançando sombras sinistras pelas paredes.

"Quem é você?", exigiu Joana, determinada a descobrir a identidade do indivíduo. O sujeito parou abruptamente. Mesmo estando próximo, sua forma não se delineava nitidamente. Era como se fosse uma sombra, uma figura misteriosa que desafiava a compreensão lógica.

Além disso, algo estranho acontecia: vozes começaram a ecoar na escuridão. O som parecia surgir de todos os cantos da sala. As velas, apesar de fornecerem uma fraca iluminação à mesa, não ajudavam a dissipar a obscuridade que parecia ter se intensificado no restante do ambiente.

"Salve, Rainha, mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, salve!", entoaram as vozes roucas. Era como se estivessem cantando, mas de uma forma arrepiante e sinistra.

"A Vós bradamos, os degredados filhos de Eva. A Vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas", as vozes ecoavam, agora em gemidos e choros. Eram sons horríveis, que penetravam os ouvidos de Joana como lâminas afiadas. Desesperada e aterrorizada, ela cobriu os ouvidos com as mãos, lutando contra a confusão que tomava conta de sua mente.

"Eia, pois, advogada nossa, esses Vossos olhos misericordiosos a nós volvei", as vozes prosseguiam com seu canto aterrorizante, envolvendo o ambiente em uma atmosfera sinistra.

Mesmo em meio ao caos e ao pavor, Joana conseguiu identificar. Aquela era a oração da Salve Rainha, a qual supostamente deveria ter recitado antes de dormir, como parte do ritual. Ela deveria entoar essa oração até um certo ponto... mas o ponto exato escapava de sua memória.

De repente, o homem misterioso soltou uma risada perturbadora. Era uma risada estranha, mais animalesca do que humana, ecoando pelo espaço com um tom enlouquecedor.

"Quem é você?", exigiu Joana, gritando para além das vozes, tentando se fazer ouvir acima do caos.

"Ora, Joana... você me chamou, não é mesmo? Essa refeição é para mim", falou o ser misterioso. O fogo das velas se intensificou, aumentando bruscamente a iluminação da mesa.

"E, depois deste desterro, nos mostrai..."

Enquanto as vozes continuavam seu cântico macabro, Joana finalmente pôde ver as feições daquele que estava sentado à sua mesa, desfrutando da comida que ela mesma havia preparado. Um grito de agonia escapou dos lábios de Joana.

Subitamente, as velas se apagaram, mergulhando a sala em total escuridão.



A loja

 


Cidade Alta, conhecida também pelo seu epíteto de Centro, ergue-se como o bairro primordial da vibrante cidade de Natal, orgulhosamente ostentando a honra de ser o primeiro a ser fundado na capital, numa data tão simbólica quanto o Natal de 1599. As ruas da Cidade Alta, pulsavam com vida comercial, eram bordadas por uma tapeçaria de lojas diversas, estendendo-se ao longo da majestosa Avenida Rio Branco e serpenteando pela Rua João Pessoa. Nas suas imediações, o passado e o presente se entrelaçam: lojas de variados tipos e prestigiosas instituições financeiras contam histórias de um tempo em que este era o coração incontestável do comércio natalense.

Contudo, como se presencia em muitos capítulos da história, a Cidade Alta hoje enfrenta uma maré de mudanças. A concorrência acirrada e a migração de clientes e comerciantes para os colossais shoppings centers da capital e para o resiliente bairro do Alecrim provocaram uma queda na sua atividade comercial outrora florescente. A pandemia de COVID-19, um golpe inesperado e avassalador, fechou as cortinas de muitos estabelecimentos, deixando nas ruas ecos de um passado mais próspero.

Neste cenário de lojas cerradas e ruas que murmuram memórias de dias mais movimentados, a missão de encontrar uma loja específica na Cidade Alta parecia, para ela, repleta de incongruências. Não era a visão das fachadas abandonadas que o inquietava; era algo mais sutil, escondido nas entrelinhas das instruções que recebera. Buscar a loja à noite, precisamente à meia-noite, e com a janela de uma única hora até o soar da 1h da madrugada, transformava a tarefa em algo quase místico. Era um jogo de esconde-esconde no véu da noite, onde o destino era uma loja misteriosa, escondida nas sombras próximas à Praça André de Albuquerque, um ponto de referência que parecia ser mais do que apenas um marco geográfico.

Ela caminhava pela praça com um terror sutil pulsando em suas veias, segurando firmemente o papel com instruções meticulosamente transcritas de uma conversa no WhatsApp — uma troca de mensagens com uma pessoa que conhecia apenas por intermédio de outra. Essa pessoa distante prometia ser a chave para desvendar e remediar os problemas que pesavam sobre ela.

A praça, o coração geodésico da cidade e seu marco zero, estava povoada por figuras que a sociedade muitas vezes opta por não enxergar. Mendigos e moradores de rua adornavam o cenário com suas presenças marcadas pelas adversidades da vida. Alguns vagueavam com um olhar perdido, capturados em seus próprios labirintos mentais. Outros, solitários, buscavam companhia na amargura de uma garrafa partilhada — uma garrafa de plástico que, enganosamente semelhante a um refrigerante, guardava um líquido incolor e alcoólico que prometia um esquecimento temporário. E ainda havia os que, entregues às sombras, se deixavam levar por vícios mais escuros.

Enquanto ela avançava, uma tremura sutil a acompanhava, e um rosário de pragas silenciosas tecia-se em sua mente. Ela questionava a própria sanidade por se encontrar ali, naquela situação, encarando o perigo potencial da noite e do desconhecido.

Ela murmurava palavras de encorajamento, uma ladainha para acalmar os batimentos descompassados de seu coração. "Mas vale a pena... se o que a loja oferecer for real, tudo valerá a pena." Era um sussurro leve, uma carícia na turbulência de sua inquietação.

A penumbra da noite era parcimoniosa, concedendo apenas vislumbres sob a luz frugal dos postes. Foi nessa atmosfera opaca que uma voz rouca rompeu o silêncio. "Olá, mocinha... Tá perdida, é?" Um vulto se aproximava, oscilando como uma chama ao vento. Ela mal podia discernir sua forma na escassa iluminação.

"Eu..." Ela recuou, a urgência de sua busca chocando-se com a cautela. Já era meia-noite, e cada minuto escorria como areia entre os dedos. "Eu estou à procura de algo..."

"Posso ajudar... com certeza posso..." A figura se aproximava, e o odor de álcool preenchia o ar, uma presença pungente. "Venha cá, deixe o Tio Chico ver você melhor. Não vou te machucar..."

“Você sabe onde fica a loja chamada... Arandu Pyharegua[1]?" As palavras escaparam apressadas de seus lábios, tropeçando apenas na pronúncia do nome, ainda incerto em sua língua.

O homem estacou como se tivesse sido atingido por um raio invisível. "Arandu... Você disse?" Sua voz era agora um sopro, e seu corpo, antes invasivo, recuava. "O que você quer com... isso?”

Determinada, ela sabia que não devia satisfações a ninguém. Por que deveria justificar a busca por uma loja enigmática, ausente do Google Maps e sem vestígios digitais como uma página no Instagram? Não estava ali para explicar suas razões a um estranho, para revelar por que seguia instruções que a maioria consideraria insanas, tudo para curar o que a afligia. Não, ela não tinha essa obrigação. Com firmeza, mas sem revelar sua ansiedade, ela perguntou:

"Então, você sabe onde fica a loja? Pode me dizer onde ela...?"

Antes que pudesse terminar a frase, o homem, como se tocado pelo sopro gelado do medo, virou-se e desapareceu na noite, deixando-a com uma mistura de confusão e frustração.

Eram trinta minutos após a meia-noite e o desespero começava a se entranhar em seu ânimo. Os vultos que antes povoavam a praça agora se esquivavam, recuando como se ela fosse portadora de alguma maldição invisível. Em meio a essa rejeição súbita e à crescente ansiedade, algo extraordinário aconteceu: a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, um marco da praça, começou a se iluminar de dentro para fora.

A igreja, um monumento de tempos idos, exibia uma fachada que harmonizava a austeridade colonial com retoques de modernidade. As paredes eram dominadas pelo branco puro, em contraste com os detalhes amarelos que realçavam com delicadeza as janelas, cornijas e o frontão. Era uma construção sólida e digna, com janelas de pedra de molduras discretas e persianas de madeira, remanescentes da arquitetura eclesiástica do Brasil colonial.

À direita, a torre do sino se erguia, adornada com ondulações e volutas do barroco, terminando em um pináculo afilado. O relógio, que antes parecia congelado no tempo, agora girava com um ímpeto inusitado.

Ela protegeu os olhos com a mão, ofuscada pelo súbito brilho que emanava do templo, perplexa diante de um fenômeno que desafiava qualquer razão. Qual missa seria celebrada a tal hora? E ainda mais estranho era o fato de que as portas da igreja, apesar do espetáculo luminoso, continuavam intransigentemente fechadas.

"Mas... o que está acontecendo?" Ela murmurou para si mesma, já que os moradores de rua que anteriormente ocupavam a praça haviam desaparecido. Sim, não restava mais ninguém; a praça e as ruelas adjacentes estavam desoladoramente vazias.

De repente, outra fonte de luz cortou a escuridão, em contraponto à igreja, do outro lado da praça. Ali surgia o contorno de uma loja que não estava ali antes, com uma entrada convidativa que se abria diretamente para a calçada. Estava banhada em luz, quase ofuscante em sua intensidade. Ela tentava, em vão, discernir alguma característica distintiva daquela loja — um letreiro, um design peculiar, um logotipo — ou mesmo a cor de suas paredes e detalhes de sua vitrine. No entanto, uma voz interna, um sussurro intuitivo, a impelia em direção àquela luz, dizendo-lhe que era exatamente o lugar que procurava em sua missão.

Ela avançou, decidida, e cruzou o limiar da loja. O contraste era gritante: do lado de fora, a luz era tão intensa que quase a cegou, mas agora, adentrando o que parecia ser um estabelecimento comercial, ela foi engolida por uma escuridão quase tangível. A escuridão era tão completa que ela se viu obrigada a buscar refúgio na luz do celular, acionando a lanterna para dissipar as sombras que a rodeavam. A luminosidade que ainda emanava da igreja era inútil aqui; parecia haver uma barreira invisível que impedia que qualquer facho daquele brilho invadisse o interior da enigmática loja.

"Ô de casa? Alguém?" Sua voz soou frágil, tremendo na vastidão escura. Uma pontada de dúvida a assaltou, uma voz interna sussurrando que talvez fosse um erro ter vindo.

"Bem-vinda", sussurrou uma voz a seu lado, causando-lhe um sobressalto. Ela não havia percebido ninguém até então, mas agora vislumbrava uma figura: uma mulher de estatura baixa, com uma leve curvatura nos ombros que sinalizava uma idade avançada. Seus cabelos, longos e lisos, eram de um negro tão intenso que se confundiam com as sombras que os envolviam. Seus olhos, porém, eram um contraste vivo; brilhavam com uma luz própria, semelhante a brasas tenazes que se recusam a se apagar, remanescentes de uma fogueira de São João há muito esquecida.

"Fico feliz que tenha encontrado minha loja", continuou a mulher, sua voz possuía uma qualidade melódica e, ao mesmo tempo, carregava uma profundidade que parecia reverberar pelo espaço confinado. Era curioso, pois o local não parecia ter as dimensões necessárias para gerar ecos.

"Eu... S-sim... Eu também estou feliz", ela conseguiu responder, ainda parcialmente imobilizada pela surpresa. Por um instante, o impulso de fugir a dominou. Seus olhos desviaram-se brevemente para a porta, mas foram rapidamente atraídos de volta pelo som de palmas. A mulher estava aplaudindo, e a cada batida, a loja se iluminava mais, não pela ignição de lâmpadas, mas por velas que se acendiam magicamente, suas chamas dançando à vida sem a intervenção de um único fósforo.

Ela franziu o cenho, esfregando os olhos na tentativa de compreender a visão diante de si. Parecia estar em uma loja, ou melhor, em um espaço repleto de estantes abarrotadas com recipientes de todas as formas e matizes. Contudo, o conteúdo dos frascos permanecia um enigma; fosse pelo vidro embaçado ou pela camada de sujeira, era impossível discernir o que estava selado em seu interior.

"Então, qual é o seu desejo, Luana?" a mulher indagou, assumindo seu posto atrás de um balcão, onde começou a esfregar um dos recipientes com um pano que mais parecia contribuir para a sujeira do que para a limpeza.

"Como você sabe o meu nome?" ela perguntou, alarmada, apegando-se ao seu celular como um talismã.

"Isso importa? Você veio até aqui, à meia-noite, em busca de uma loja que só abre neste horário... Não é o momento para se preocupar com tais detalhes, filha," respondeu a proprietária, sem levantar o olhar para sua cliente.

"Eu... Bem... Me disseram que você pode resolver problemas. Realizar desejos. Curar doenças," disse ela, com a voz desvanecendo quase em um sussurro nas últimas palavras.

"Então, te informaram corretamente," a mulher replicou, interrompendo a fricção em um frasco para começar em outro, com a mesma atenção meticulosa.

"Eu..." Ela umedecia os lábios, reunindo coragem para articular as palavras que carregava consigo, pesadas como pedras no coração. "Estou morrendo... Recebi um prognóstico com poucos meses de vida. Por isso, vim até aqui, na esperança de que você pudesse me curar."

"Ah, eu percebi o odor pútrido da morte assim que você cruzou a soleira. Eles estavam certos sobre você, parece. Às vezes cometem erros... Fazem a previsão de morte e o fim não vem. Mas no seu caso, a previsão foi acertada," disse a dona da loja, sua voz desprovida de qualquer traço de compaixão, o que fez o semblante de Luana perder ainda mais a cor ante suas palavras.

"Você pode me curar?" Luana insistiu, sua voz tremulava, embargada pela emoção que lutava para conter.

A mulher finalmente a encarou, e mesmo com a loja agora iluminada pelo fogo místico das velas, o brilho em seus olhos continuava a arder intensamente. "Há um preço a ser pago. Não sei se já te informaram sobre isso," ela declarou. Nesse instante, o som de batidas ressoou da igreja, cujas portas permaneciam inabalavelmente fechadas. Luana sentiu um arrepio de temor.

"Bem... Não me disseram nada," ela admitiu, uma corrente gelada parecendo escorrer ao longo de sua espinha.

“Eu tenho algum dinheiro guardado na conta corrente e na poupança..." ela começou, já estendendo a mão em direção à bolsa para buscar o cartão de crédito. No fundo, questionava-se se aquela figura enigmática aceitaria um pagamento via Pix, embora a loja tivesse um ar tão ancestral que parecia improvável que houvesse ali uma máquina de cartão.

"Basta um nome," disse a mulher, esboçando um sorriso onde o branco dos dentes reluzia. "O nome de uma criança que você conheça."

"Uma criança?" Luana exclamou, o medo súbito cristalizando-se em sua voz.

"Como você, eu padeço de uma condição... incurável," a dona da loja confessou, retomando a tarefa de limpar um recipiente, este notavelmente maior e, para o desconforto de Luana, visivelmente ocupado por um líquido de tom rubro-escuro. "Para aliviar meus sintomas, preciso consumir certas... partes do corpo humano."

Com um gesto tranquilo, ela destampou o recipiente, e um odor fétido, misturado com o cheiro metálico do sangue, invadiu o ar. As batidas vindas da porta da igreja intensificaram-se, ecoando pela praça com um ritmo quase desesperado.

Luana levou a mão à boca, nauseada pela revelação.

"Fígados," continuou a mulher, imperturbável diante do horror de Luana. "Mas não de qualquer um — apenas fígados infantis servem ao meu propósito." Ela falava com um interesse mórbido, vertendo o líquido escuro em um copo sujo, os lábios umedecidos pela antecipação do banquete macabro.

"Fígados..." Luana ecoou em um sussurro, sua voz quase se perdendo no ar carregado da loja.

"Sim, fígados. Mas sua anuência é essencial," disse a mulher, saboreando o líquido do copo com uma avidez que deixou Luana estática. Ela se sentia estranhamente ancorada ao chão, as pernas pesadas como chumbo, a saída da loja uma miragem distante.

"Não posso prosseguir sem o seu consentimento. São as regras do meu... tratamento," continuou a mulher, limpando a boca manchada de vermelho com um dos panos encardidos sobre o balcão. "E não se iluda pensando que minha própria enfermidade me impede de curar a sua. O mal que me aflige não tem nexo com as doenças dos mortais. Por isso, fique tranquila... Você pode ser curada. O custo, no entanto, é o nome de uma criança que você conheça. Apenas isso."

Os segundos se arrastavam enquanto Luana ponderava sua escolha. A mulher havia desviado o olhar, ocupada novamente em limpar outro recipiente. Luana reparou, com um arrepio, que cada frasco na loja continha o mesmo líquido vermelho-escuro que ela havia visto ser derramado no copo. Como não percebera isso antes? Seriam todos provenientes de fígados? A situação era tão surreal... Talvez fosse apenas um delírio, uma alucinação provocada pelo tumor que os médicos alertaram que poderia acontecer.

Se tudo não passasse de um sonho ou um pesadelo, qual seria o problema em dizer um nome? Não seria real. Poderia ser o filho da sua irmã, o bebê do seu primo, as gêmeas da vizinha, o filho do seu chefe... Ou até aquelas crianças anônimas do condomínio, cujos nomes e famílias eram desconhecidos. Qualquer um deles serviria, não é verdade?

Contudo, a questão moral se impunha: era justo fazer tal troca? Consentir com isso? Ela ansiava por mais tempo de vida, por experiências ainda não vividas, por sonhos não realizados — e ter filhos era um deles.

O retumbar das batidas da igreja amplificava-se, ecoando em um ritmo que parecia imitar as aceleradas batidas de seu coração.

"E então? Qual será sua decisão? A meia-noite não dura para sempre," pressionou a proprietária da loja, a impaciência tingindo sua voz. "E devo alertá-la que não estou sempre aqui. Minha loja se move, sou chamada para outros lugares, outros estados..."

As palavras da mulher se misturavam à cacofonia de dúvidas que inundavam a mente de Luana. O constante bater que vinha da igreja não lhe concedia um momento de paz para ponderar. Era uma chance única...

Com os lábios secos, Luana passou a língua por eles. Abriu a boca. E então, ela falou.

No exato momento em que sua voz se projetou, o sino da igreja soou, um som poderoso que vibrava pelas paredes e preenchia o espaço. Estranhamente, as badaladas pareciam entrelaçar-se com sons que lembravam o choro de crianças.

 



[1] Arandu pyharegua em guarani significa Sabedoria da Noite.

 


Entre a Chuva e o Sol

  "Você tem certeza de que ela é realmente competente?" "Sim, pelo menos é o que dizem...", seu assessor lhe infor...